Do limbo de Detroit - O Death original


A cena de Detroit nos anos 60 e 70 foi única e seminal. Deveria ter alguma coisa na droga que eles tomavam. Até hoje a cidade vem nos presenteando com boas bandas, mas foi com os Stooges e o MC5 que a "cidade dos motores" americana teve seu nome fixado na história do rock 'n' roll, podendo se dizer até que, lá foi onde o punk nasceu. Porém muitas bandas daquela época e que de certa forma também ajudaram a formar a sonoridade direta e agressiva que anos mais tarde convencionou-se a chamar de punk rock acabaram sendo esquecidas com o tempo, e o Death é uma delas.

É claro que não estamos falando do Death dos anos 80, a banda de death metal que todos conhecemos. Esse é o Death original, que inclusive eu gosto mais. A história da banda por muito tempo foi esquecida e a sua obra também. Até 2009, tudo que se conhecia da banda era um raríssimo compacto com as músicas "Keep On Knockin'" e "Politicians In My Eyes", lançado em 1976, e se tinham muito poucas informações sobre esses pioneiros. A banda permaneceu no limbo por 35 anos, até que Bobby Hackney Jr., filho de um dos integrantes da banda, decidiu resgatar a obra e a história da banda de seu pai e seus tios.

O Death foi formado por volta de 1971, pelos irmão David (guitarra e vocal), Bobby (baixo) e Dannis Hackney (bateria), e no início, tocavam apenas soul music e funk. Todos eles tinham uma tendência roqueira, mas sonoridade da banda mudou para o rock 'n' roll em 1973 após os irmãos terem ido à um show do Alice Cooper. Adotaram também o nome mais "roqueiro" que puderam pensar: Death. Porém isso acabou por emperrar os sonhos da banda.



A banda começou a tocar em clubes na zona leste de Detroit, onde a maioria dos habitantes, assim como eles, eram negros, e desde sempre causaram um certo espanto, pois faziam um som muito agressivo e pesado para a época, até mesmo em relação aos Stooges e ao MC5! O Death foi um grupo muito à frente do seu tempo e talvez por isso não tenha sido compreendido na sua época.

Quando decidiram gravar, em 1974, David, que por ser o mais velho dos irmãos, escolheu um estúdio para realizar as gravações. Assinaram com Brian Spears e a Groovesville Productions, e dessas sessões gravaram 7 músicas. Brian Spears acompanhou todas as sessões e sempre levou fé no grupo. Após o término das gravações, foram até Nova York tentar negociar com a Columbia, porém uma das exigências para a banda fechar o contrato era que a banda mudasse de nome. É claro que eles recusaram, pois acreditavam que poderiam ir longe e assinar tranquilamente com outra gravadora, sem precisar mudar o nome ou alterar o som. Infelizmente isso nunca se realizou e nessa época lançaram apenas o compacto em 1976, completamente independente, "Keep On Knockin'/Politicians In My Eyes", que não vendeu nada na época e acabou sendo esquecido pelo tempo. Decepcionados, os irmãos decidiram acabar com o Death ainda em 1976.



David morreu em 1982 e Bobby e Dannis montaram o Lambsbread, grupo de reggae que está na ativa até hoje. A "ressurreição" do Death é uma história bastante curiosa: em 2008, Julian, um dos três filhos de Bobby, ouviu o som do Death em uma festa e pensou ter reconhecido a voz do tio. Pediu informações sobre a banda e intrigado, contou para seu irmão Bobby Jr. e ambos decidiram pesquisar na internet sobre a banda, e ficaram sabendo de tudo. Ao questionar o pai, ele contou toda a história da banda e os filhos, entusiasmados, decidiram resgatar o legado de sua família. Conseguiram. Em 2009, depois de 35 anos no limbo, saiu pela Drag City o excelente disco do Death, que recebeu o sugestivo título de  "...For The Whole World To See". Além das duas faixas lançadas no raríssimo compacto de 1976, trouxe as outras 5 faixas que estariam no LP da banda. O disco foi muito bem recebido e em 2011 a Drag City resolveu resgatar mais material do Death, que foi lançado no disco "Spiritual, Mental, Physical". Tratam-se de demos e registros de ensaios daquelas sessões de 1974 na Grovesville.



Demorou, mas hoje em dia o legado do Death é conhecido e respeitado. Baixe aqui o sensacional "...For the Whole World to See".

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