D.O.A. - A reserva moral do punk canadense


Formada no ano de 1978, em Vancouver, no Canadá, após o final do The Skulls (banda canadense seminal que também deu origem ao Subhumans, outra banda que trarei aqui no blog mais tarde) por Joey "Shithead" Keithley, o D.O.A. é um dos pioneiros do punk rock canadense, e talvez a maior reserva moral do estilo na terra dos alces e lenhadores. Com músicos acima da média, referências das mais variadas (que iam desde o rock 'n' roll dos anos 60 e 70 até o reggae e o ska, passando até mesmo pelo heavy metal) e uma postura política séria aliada a letras ácidas, irônicas, inteligentes e agressivas, o D.O.A. desde sempre foi uma das minhas bandas preferidas no universo punk/hardcore. Infelizmente, no Brasil a banda não é muito conhecida, mas ajudaram a construir um capítulo importante na história do punk e do hardcore mundial.

Falando um pouco sobre a história da banda, o D.O.A. foi formado por Joey "Shithead" Keithley (guitarrista e vocalista), após inúmeras experiências em outras bandas com seus amigos, que nunca vingaram, mas serviram para mostrar pra ele que o que ele queria mesmo era fazer um som e tocar o terror. A primeira formação da banda contava com Chuck Biscuits na bateria e Randy Archibald no baixo, e chegou a ter um vocalista, Harry Homo, que apesar de ser um bom frontman e agitasse bastante o público era um péssimo vocalista, e logo após o primeiro show da banda foi descartado.



Ainda em 1978 a banda fez vários shows em diversas casas de Vancouver, e começavam a ganhar fama no underground local. Com bastante material composto, a banda já estava pensando em gravar e é claro que não foram atrás de uma gravadora, resolveram lançar a bagaça sozinhos. Alugaram nove horas num estúdio fuleiro com uma bateria alugada completamente podre e um equipamento totalmente precário, e o resultado foram quatro absolutos petardos do punk rock canadense, que formaram o primeiro compacto do D.O.A, com "Disco Sucks", "Royal Police", "Nazi Training Camp" e "Woke Up Screaming". Assim nasceu também o selo Sudden Death Records, de Joey Keithley, que até hoje está em atividade e lançando os lançamentos não só do D.O.A. mas como de outras bandas canadenses. O primeiro compacto 7'' do D.O.A. foi limitado à 500 cópias que se esgotaram rapidamente.

A banda enviou algumas cópias para alguns zines e rádios na costa leste dos EUA e pronto, a merda estava feita. Com menos de um ano de existência a banda já se apresentava em solo estrangeiro, em Los Angeles, onde passaram um tempo a mais e iniciaram uma grande amizade com o pessoal daquela cena, especialmente com Jello Biafra, do Dead Kennedys. Inclusive, mais tarde, em 1989, Jello Biafra lançaria um disco com o D.O.A. como banda de apoio, o espetacular "Last Screams of the Missing Neighbours", porém isso é assunto pra outra hora.

No retorno à Vancouver a banda lançou mais um compacto, dessa vez com "The Prisoner" e "13", além de duas faixas ("I Hate You" e "Kill Kill This Is Pop") para a coletânea "Vancouver Complication" (uma equivalente canadense do "SUB" ou "Ataque Sonoro", essencial para aqueles que desejam se aprofundar no punk rock canadense).



Em 1979, mais uma tour pelos EUA, cheia das tretas, complicações e contratempos, porém que ajudou a promover bastante a banda, os levou a decidir que precisavam de uma "babá" para cuidar deles e administrar dos negócios da banda, aí entra Ken Lester, um ativista político malucasso cheio de ideias irreverentes, assim como os próprios membros da banda, o que acabou culminando numa parceria forte e bastante duradoura. Em 1979 também lançaram mais um compacto, com "World War III" e "Watcha You Gonna Do?".

Após finalizarem uma tour pelo Canadá e tocarem em algumas cidades dos EUA, e tendo inclusive abrindo um show do Clash em Vancouver, o D.O.A. foi convidado para um show em uma universidade de engenharia. Péssima ideia. Terminou em treta. Como já estavam enfrentando as mais diversas confusões, acabaram discutindo e Chuck e Randy chutaram o balde e mandaram Keithley pra puta que pariu.

Porém nosso herói Joey não desistiu, ainda mais porque a banda havia começado as gravações do primeiro LP, e reformulou completamente a banda, inclusive com um segundo guitarrista, Dave Greg. Deram seguimento às gravações e acabaram fazendo alguns shows que foram uma bosta completa, mas num desses shows, Chuck e Randy estavam na plateia, e após o show, trocaram uma ideia com Joey, se abraçaram e decidiram que todos deveriam voltar a ser amiguinhos e voltar com o D.O.A. original. Foi a vez de Joey mandar todos os outros membros do D.O.A. reformulado para a puta que pariu, com excessão de Dave Greg, que permaneceu na banda por sugestão de Ken Lester, que achava que o D.O.A. precisava de um segundo guitarrista. Retomaram as gravações do primeiro LP, tendo que regravar a porra toda e assim, em 1980 saiu "Something Better Change", o primeiro disco da banda e uma pérola do punk rock canadense e mundial.



No final de 1980, a banda começou a gravar seu segundo LP, o mais que clássico "Hardcore '81". Embora muitos pensem que o D.O.A. foi a primeira banda a adotar essa expressão, na realidade o título foi retirado de uma matéria de um zine punk de San Francisco que falava sobre bandas como o Dead Kennedys, Avengers, Black Flag, Circle Jerks e incluiu o D.O.A, mesmo sendo canadenses. Inclusive, muitas vezes o D.O.A. foi confundido com uma banda da costa oeste dos Estados Unidos, não só porque faziam várias tours por aqueles pagos, mas também porque o som se assemelhava muito com o daquelas bandas.

De qualquer forma, "Hardcore '81" é uma paulada na cabeça, um legítimo disco de hardcore. Apenas 14 músicas em 19 minutos, riffs rápidos, bateria furiosa, letras ácidas e um som completamente agressivo. Lindo, essa é a palavra certa para descrever esse petardo. O disco saiu em abril de 1981 e foi muito bem aceito pelos fãs, e inclusive até hoje é considerado o melhor da banda por muitos. Rendeu uma tour no Canadá e nos EUA e inclusive um show em Londres com o Dead Kennedys, onde chegaram a gravar uma sessão na BBC Radio com o lendário John Peel (o cara mais legal da história da música e o maior manjador de putarias de todos os tempos).

No retorno de Londres, Randy já não estava mostrando mais tanto interesse e dedicação com a banda e decidiu sair do D.O.A, sendo substituído por Dimwit, que era o batera do Subhumans e irmão mais velho do Chuck.



Mas essa formação não durou muito. Em 1982, nas gravações do EP "War on '45", a banda começava a flertar com o reggae e experimentar novos elementos no som. Chuck e Dimwit discutiram feio durante as sessões de gravação e Chuck, que também já estava enchendo o saco do D.O.A, saiu da banda. Chuck acabou se tornando um dos mais lendários bateristas do punk rock, então: tocou com o Black Flag, Circle Jerks, Social Distortion, Danzig e mais uma caralhada de banda. Com Chuck fora, foi natural que Dimwit assumisse a batera, e Joey convidou Brian "Wimpy" Goble, amigo de infância, para assumir o posto. Brian, na época, era vocal do Subhumans. Agora, o D.O.A. contava 75% da formação do The Skulls, a seminal banda que deu origem ao próprio D.O.A. e o Subhumans. Apenas Dave Greg não tinha participado do Skulls. Com essa formação, continuaram as intermináveis tours e as gravações do EP "War on '45", um dos melhores registros da banda, que mostra um D.O.A muito mais maduro, liricamente e musicalmente.


Em 1983, Gerry Useless (ex-baixista do Subhumans e também amigo de infância dos membros do D.O.A.) foi preso, por seu ativismo político radical de ação direta, que junto com seus parceiros do "Squamish Five" (que também foram parar no xilindró), cometeram ações quase-terroristas que causaram estragos irreversíveis para a cultura capitalista, acreditando que somente causando grandes danos físicos e financeiros poderiam destruir o inimigo. Essa história será contada com mais detalhes em outro post.

De qualquer forma, com a prisão do camarada anarquista muito loco, o D.O.A. acabou iniciando algo que mais tarde se tornaria uma de suas tradições: lançar EPs, singles ou organizar shows beneficentes, em prol de causas políticas. Assim sendo, o EP "The Right to Be Wild", foi lançado em apoio ao amigo ativista. Toda a renda do EP (e dos shows que acabaram fazendo em prol à causa) foram todos destinados às despesas judiciais de Gerry. Se bons advogados já são caros pra cacete aqui, imagina lá no Canadá! O EP tinha uma releitura do D.O.A. da clássica "Fuck You", do Subhumans (que foi regravada pelo Overkill, os metaleiros 666 devem conhecer por essa versão), que é de autoria de Gerry Useless.



Após o lançamento do EP, Dimwit larga o D.O.A. e vai para o Pointed Sticks. No seu lugar entra Peckerwood, ex-batera da clássica Verbal Abuse. Em 1984 as coisas iam bem para o D.O.A, com a primeira tour europeia do grupo (antes, haviam tocado apenas uma vez em Londres com o Dead Kennedys). Na volta para casa, em 1985, Peckerwood foi convidado à se retirar pois não estava agradando, e Dimwit volta. Com sua volta decidem gravar um novo LP, "Let's Wreck the Party". Esse disco mostra um D.O.A. um pouco afastado das raízes punk, e é bem puxado para o hard rock e rock 'n' roll dos anos 70, porém extremamente politizado. Apesar de ser um disco fudido, particularmente acho a produção dele muito bagacera. A tour da promoção desse disco foi a mais longa da história da banda. Foram 8 meses de estrada, 132 shows, 103 cidades diferentes e 13 países. Obviamente a estrada desgastou a banda e Dimwit saiu novamente, então o D.O.A. recrutou Jon Card, ex-SNFU.

Na sequência, já em 1987, gravaram o quinto LP, "True (North) Strong And Free", talvez o disco mais rock 'n' roll da banda. Já acho um registro superior ao anterior, "Let's Wreck the Party", a produção é bem melhor e é um disco mais agressivo. Foi produzido por Cecil English, que iria trabalhar com a banda em pelo menos mais cinco discos.



Porém as tours continuavam inacabáveis e as mudanças de formação constantes. Ken Lester deixou o cargo de "administrador" do grupo, que à essas alturas, já estava bastante profissional. Com ele, Dave Greg também deixou o barco. Em seu lugar, entra Cris Humper, ex-Dayglo Abortions. Com essa formação lançaram um ao vivo chamado "Talk Minus Actions Equals Zero" e em 1990 o disco "Murder", onde atingiram seu ápice na maturidade lírica e musical, com vários elementos de heavy metal e rock 'n' roll dos anos 70. A banda continuou flertando com outros ritmos e mais tarde também começariam a experimentar (bastante) com elementos do ska. Em minha opinião, "Murder" foi o último grande disco do D.O.A, claro, não que os outros discos sejam ruins, porém, talvez pelas constantes trocas de formação e falta de inspiração, jamais conseguiram atingar o nível de seus primeiros discos novamente. Após uma tour para promover o disco, a banda entrou em recesso.

Em 1992 Brian Goble e Joey voltam com o D.O.A. e desde então a banda nunca mais parou, mesmo com as constantes mudanças de formação, fazendo shows e tours com frequência e sempre lançando discos novos, quase sempre com material inédito. Em 2011 ou 2010 (não lembro), inclusive vieram pela primeira vez ao Brasil. Houveram três datas, se não me engano, no Rio de Janeiro, em São Paulo e Curitiba. Não tive a oportunidade de ir em nenhum, e não faço ideia de como tenham sido os shows, mas creio que para a nossa desgraça eles nunca mais voltem (desculpem o pessimismo, mas é o mais provável)... O último disco do D.O.A. foi "We Come In Peace", que foi lançado no ano passado e inclusive conta com a participação especial de Jello Biafra em uma das faixas, "We Occupy". Aliás, um bom disco, talvez o melhor da banda desde o "Murder". Vale a pena dar uma procurada e ouvir.


Para conhecer a obra dos reservas morais do punk canadense, deixo para download os discos "Someting Better Change", "Hardcore '81", "Let's Wreck the Party", "True (North) Strong and Free" e o EP "War on '45", em minha opinião, os melhores da banda. "Keep on drivin' to hell and back!"

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