From Ashes Rise - Diretamente das cinzas


Ontem falamos aqui no blog sobre o The Estranged, um dos muitos projetos de Derek Willman. Derek na verdade é mais conhecido pelos seus projetos de barulheira, como o Hellshock e o From Ashes Rise, tema do post de hoje. Aliás, o post de hoje é especial, é um material colaborativo que o nosso camarada Homero Pivotto Jr. (vocalista da banda de hardcore/crust Tijolo Seis Furos e apresentador do programa Let's Start na Rádio Putzgrila, que inclusive fechou uma parceria conosco recentemente) nos enviou. Trata-se de uma entrevista com Brad Boatright, vocalista, guitarrista e um dos fundadores do From Ashes Rise, feita por ele um tempo atrás. Supimpa, não? Aí segue!


O From Ashes Rise foi criado na segunda metade dos anos 90, em Nashville (Tenessee), sul dos Estados Unidos. O som, em uma definição simples, é algo como o elo perdido entre o hardcore americano – rápido e urgente – e o europeu – mais pesado e sombrio. Além disso, incorpora passagens melódicas e elementos do heavy metal inspirados por bandas como Black Sabbath e Corrosion of Conformity, por exemplo. Grupos com essa musicalidade acabaram enquadrados em um estilo que se convencionou chamar de neocrust. Nele, também estavam inseridas bandas como Tragedy, World Burns to Death, Hellshock e His Hero Is Gone – um dos pioneiros nesse tipo de mistureba.

Entre 1997 e 2005, o From Ashes passou por algumas mudanças na formação e lançou oito registros, entre full lengths, compilações, splits e gravações ao vivo. A dedicação rendeu reconhecimento no meio alternativo e inúmeras turnês. Mas também trouxe o desgaste que culminou em alguns anos de silêncio. Entretanto, uma carreira concreta, apesar de curta, não poderia encerrar prematuramente. Então, em 2009, o atualmente quarteto Brad Boatright (voz e guitarra), Dave Atchison (bateria), Derek Willman (baixo) e John Wilkerson (voz e guitarra) decidiu retomar o pesadelo sonoro. Após a volta, o FAR já disponibilizou um compacto com duas músicas e um videoclipe muito bem produzido. Para 2013, um disco de inéditas está sendo preparado.

Para falar sobre o retorno, o início da banda, as influências, novas formas de divulgação e o que deve vir pela frente, conversamos, por e-mail, com Brad Boatright (36 anos), um dos fundadores do FAR.



Brad, você conhece algo sobre nosso país ou nossa cultura? E sobre o cenário da música pesada do Brasil, já ouviu algo?

Brad Boatright – Com certeza! Eu fiz uma turnê pelo Brasil quando estava no World Burns to Death, há uns 10 anos. Bandas como Ratos de Porão, Armagedom, Lobotomia, Olho Seco, Cólera… A lista é sem fim, e a cena brasileira é mantida em alta por aqui.

O From Ashes Rise começou em 1997. Antes disso, você teve outras bandas?

Brad Boatright – Eu estava em uma banda chamada The Cooters, John Wilkerson (também guitarrista e vocalista do From Ashes Rise) tocou no Gristle e o Dave Atchison (baterista) fez parte do Brazen Youth.

Como você se envolveu com arte, principalmente música pesada e cultura underground?

Brad Boatright – Isso sempre foi muito acessível para nós, e parecia natural. A agressividade e a raiva da música underground – especialmente por sermos de onde somos – foi atraente. Isso sempre pareceu como uma segunda natureza.

Que tipo de música você costumava ouvir e quais artistas te inspiraram a formar uma banda?
Brad Boatright – Black Flag, Discharge, Corrosion Of Conformity, Amebix, Neurosis… Essas foram bandas que nos formaram e significaram algo para nós. São artistas que excursionaram incessantemente, ou que tinham uma sonoridade única que realmente nos influenciou.

Aproveitando, por favor, diga cinco bandas que ajudaram a formar a identidade musical do From Ashes Rise?

Brad Boatright - Neurosis, Black Flag, Discharge, Corrosion of Conformity e Slayer.

Atualmente, o From Ashes Rise é seu único projeto musical?

Brad Boatright – Sim, é! Derek Willman (baixista do FAR) é muito ativo com suas outras bandas (Hellshock, The Estranged) hoje em dia. Todos nós tendemos a fazer parte de projetos que vêm e vão. O mais recente foi o Lebanon, no qual eu e Derek nos juntamos aos amigos Joel Armstrong and Josh Smith.

Pode-se dizer que o From Ashes Rise é sua banda mais relevante? O que mudou na sua vida desde que o grupo começou?

Brad Boatright – Bom, claro que o FAR é uma grande parte das nossas vidas. Estamos envolvidos com isso há 15 anos. Todos cresceram como pessoas desde que nos conhecemos, ainda adolescentes.



O From Ashes Rise soa pesado e intenso, mas tem algumas partes melódicas também. De onde surgiu a ideia de usar esses elementos um pouco mais trabalhados?

Brad Boatright – Definitivamente isso vem de aspectos do metal ou do rock. Mas, também de um sentimento de que precisávamos de algo que levasse o som típico hardcore para além, sem depender de mudanças de ritmo. Bandas como Iron Maiden, Thin Lizzy e outras usam melodias para criar um som único, então sempre pensamos: por que não tentar isso em um contexto hardcore?

Sua música é intensa, pesada e sombria. Ao mesmo tempo, é enérgica e raivosa. É difícil ouvir From Ashes Rise e não sentir vontade de extravasar de alguma maneira. Desde o começo a ideia era criar uma musicalidade assim ou isso aconteceu naturalmente, conforme o tempo foi passando?

Brad Boatright – Rolou naturalmente. Todos da banda acreditam na intensidade dentro da música.

O FAR é considerado como uma banda de ‘neocrust’. Vocês gostam desse rótulo? O que pensa sobre isso?

Brad Boatright – Rótulos aparecem e desaparecem… Nós apenas tocamos o que queremos ouvir, o que estamos escutando em nossas cabeças.

Grupos como Tragedy e World Burns to Death executam uma linha de som similar a de vocês. Vocês têm contato com essas bandas? Qual a relação do From Ashes Rise com esses outros artistas?

Brad Boatright – Claro que temos, somos todos uma família realmente unida! Eu toquei com o World Burns to Death por alguns anos, e o Tragedy dividiu com a gente um espaço para ensaios. É uma comunidade muito próxima formada por bons amigos.

Esse tipo de som – que mistura punk/hardcore e metal de uma maneira sombria – conseguiu espaço na última década. Por que você acha que o estilo ganhou importância ao redor do planeta?

Brad Boatright – Acho que, ultimamente, é algo progressivo. Existem bandas que emulam isso, e outras que se originam. Eu não diria que caímos em nenhuma das categorias especificamente, mas, na última década, a divisão entre esses dois tipos de som cresceu. Talvez seja por causa das turnês, ou ainda apenas porque o som é atraente. Eu realmente não saberia dizer. A gente apenas tenta fazer nossa parte para ajudar no crescimento da música.

O From Ashes Rise encontrou espaço não só no meio punk/hardcore e no metal, mas também na cena alternativa. Você acredita que é por conta da sonoridade ou dos ideais da banda?

Brad Boatright – Provavelmente o som mais do que qualquer coisa, mas também a cena da qual viemos. Excursionamos incessantemente nos circuitos do ‘faça-você-mesmo’, o que, por tradição, tem uma inclinação mais punk.

Falando sobre ideais… Boa parte das faixas do FAR aborda temas sociais. De onde vocês tiram inspiração? É você que escreve as letras?

Brad Boatright – Todos na banda escrevem letras, e elas são “observativas”. Buscamos inspiração no que está em nossa volta. Todas as letras são abertas à interpretação.

O From Ashes Rise deu um tempo entre 2005 e 2009 em função das exaustivas turnês e pressões internas. Você poderia nos dizer o que realmente ocorreu? Rolaram conflitos?

Brad Boatright – Estávamos exaustos! Viver em uma van por meses pode criar pressões e conflitos. Não estávamos felizes com nosso processo criativo, então preferimos dar uma pausa nas atividades.

Em sua jornada, o From Ashes Rise já trabalhou com algumas gravadoras interessantes. Uma delas foi a Jade Tree (na qual o FAR trouxe peso à um catálogo composto, em sua maioria, por bandas mais melódicas). Agora, a banda está na Southern Lord e faz parte um cast variado de doideiras. Como essa experiência ajudou o FAR a se desenvolver como banda?

Brad Boatright – É ótimo trabalhar com gente que mantém as coisas unidas! Eles podem prover muitas aberturas de espaço, e isso gera oportunidades para shows e colaborações. Além disso, faz com que sejamos ouvidos com mais facilidade. 

Seu ultimo disco de estúdio é o Nightmares (2003). Em 2012, vocês liberaram um compacto (Rejoice the End/Rage of Sanity) e o videoclipe de ‘Rejoice the End’. Esses trabalhos marcam as primeiras músicas criadas depois do retorno? Como foi a concepção do material?

Brad Boatright – Foi fantastico! Ambas as faixas (‘Rejoice the End’ e ‘Rage of Sanity’) estavam sendo trabalhadas desde 2005, antes de pararmos de tocar. Estamos realmente contentes com todo o processo e tivemos tempo suficiente para deixar as músicas do jeito que queríamos.



O From Ashes Rise está recebendo apoio de um projeto chamado Scion Audio Visual, desenvolvido pela Scion (subdivisão da empresa automobilística Toyota). De que maneira você acredita que grandes corporações podem ajudar o cenário artístico alternativo? 

Brad Boatright – É estranho, e eu posso achar isso para sempre, mas creio que estamos em uma nova era das comunicações. O lance de as revistas impressas serem a forma dominante de exposição está desaparecendo. A Scion preencheu uma lacuna deixada pela mídia. É um assunto polêmico, mas eu acho válido. Existem várias bandas e músicos que estão sendo beneficiados com o auxílio deles (Scion).

Você tem um estúdio de áudio chamado Audiosiege. Como está indo? Com quais artistas você já trabalhou?

Brad Boatright – Está indo muito bem, e eu estou me dedicando ao estúdio em tempo integral. Eu já trabalhei com toneladas de ótimas bandas e pessoas nos últimos anos: Seas Will Rise, Sarabante, Sleep, High On Fire, Deviated Instinct, SUNN O))), Age of Woe… é uma lista bem longa!

Sobre uma turnê no Brasil, por que, até o momento, isso nunca rolou?

Brad Boatright – Espero que aconteça um dia. Tínhamos planos para ir até o Brasil quando paramos. Eu amo o país!

Para o futuro, o From Ashes tem planos de lançar um novo álbum?

Brad Boatright – Atualmente, estamos escrevendo um disco novo que esperamos lançar em 2013.


Para complementar, aí segue um link para o download do disco "Nightmares" de 2003, o último disco de estúdio lançado pela banda e em minha opinião o melhor trabalho dos caras.

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