Kylesa - Quando a fúria punk encontra a lisergia e o Black Sabbath


Mais uma vez, nosso camarada Homero nos envia mais material colaborativo da melhor qualidade. Dessa vez, ele nos concedeu uma entrevista exclusiva com Laura Pleasants, do Kylesa, na primeira entrevista em nome da banda para o Brasil!

Imerso em um cadeirão de influências encapetadas, o Kylesa é uma das gratas surpresas do rock nervoso desse novo século. Misturando a urgência do crust/punk, a angústia do sludge/doom e a lisergia do psicodelismo somados ao peso do heavy metal e do stoner à la Black Sabbath, o quinteto norte-americano de Savannah, estado da Georgia, desenvolveu uma musicalidade viajandona para Timothy Leary nenhum botar defeito. Essa amálgama sonora proposital é, inclusive, a grande virtude da banda. Sem se prender a rótulos, o Kylesa garante ao ouvinte uma jornada sem culpa pelo amplo universo do rock’n’roll. E a ousadia não para por aí. Além de estreitar as fronteiras entre estilos distintos, o conjunto aposta em uma formação pouco usual, que conta com duas baterias e três vozes.

O nome é inspirado na expressão budista ‘kilesa mara’, que seria, numa definição bem simples, algo como estados mentais oscilantes e ilusórios que podem ir da ansiedade à depressão. Algo que denota bem a proposta musical do grupo. Surgido em 2001, o Kylesa passou por perrengues, mas soube lidar com as adversidades. Entre a morte de um integrante e trocas de formação, o grupo moldou sua identidade sem puritanismos e ganhou respaldo mundo afora. Logo no início da carreira, o baixista e fundador Brian Duke morreu de ataque epilético enquanto o primeiro disco – autointitulado e lançado em 2002 – estava sendo feito. Seguiram-se alguns EPs e splits com parceiros de caminhada até o lançamento do segundo álbum, "To Walk a Middle Course" (2005). Em seguida, Brandon Baltzley, então responsável pelas baquetas, deixou o posto e foi substituído por dois bateristas. A partir daí, além de shows mais intensos, a banda colocou na praça discos mais arrebatadores: "Time Will Fuse Its Worth" (2006), "Static Tensions" (2009), "Spiral Shadows" (2010) e a recente compilação "From the Vaults Vol. 1" (2012). Em 2009, o Kylesa ainda dividiu um registro com os crusts suecos do Victims.

Formada atualmente por Laura Pleasants (guitarra e voz), Phillip Cope (guitarra e voz), Carl McGinley (bateria), Eric Hernandez (baixo e voz) e Tyler Newberry (bateria), a banda deve lançar em maio seu sexto disco de inéditas, batizado de "Ultraviolet". Conforme informações divulgadas nos canais oficiais do Kylesa, o disco será mais "frio e escuro" do que o anterior, com faixas que abordam múltiplos temas da perda. A recém-liberada canção "Unspoken" é um bom exemplo do que vem por aí.



Como quem não quer nada tentei uma entrevista com a Laura via Facebbok.  Muito "pleasant" (simpática), ela topou responder de boa.  Entre os assuntos abordados estão o surgimento do Kylesa, influências, mulheres na música e liberdade criativa. Segundo a moça, esta é a primeira entrevista que ela responde em nome do Kylesa para a imprensa brasileira. Ouié!

Você teve alguma banda antes do Kylesa? Caso sim, quais foram esses grupos e que tipo de som tocavam?

Laura Pleasants – Sim, eu estive em algumas bandas de pequeno porte antes do Kylesa. The Flys foi minha primeira, e a gente tocava uma mistura de surf rock, punk e garage rock. Depois, eu passei por um grupo chamado Mugshots, que era mais street punk e hardcore. Ainda passei por um punhado de outras bandas, mas nada muito sério. Eu estava na faculdade e esse era meu foco principal naquele tempo.

Como o Kylesa teve início e qual era a ideia musical quando a banda começou?

Laura Pleasants – O Kylesa começou quando a banda anterior do Phillip Cope (vocal e guitarra do Kylesa), chamada Damad, dividiu-se. Eu era amiga dele e do Brian Duke (ex-baixista e vocalista do Kylesa), e eles queriam começar algo novo. Então, me convidaram para fazer parte. Phillip e eu tocamos juntos algumas vezes e ele sabia que eu estava procurando por algo sério. Então, juntamos forças e começamos o Kylesa. Musicalmente, queríamos manter a coisa pesada, mas não queríamos nos limitar a gêneros ou influências em comum. A partir desse começo, fizemos um pacto que permitiria levarmos a banda em qualquer direção que a gente quisesse. Queríamos desafiar o cenário da música pesada a não produzir sons que caíssem na mesmice. Era pra ser um projeto de arte em andamento, que nos desafiaria e nos manteria criativamente ativos.


Quando você tornou-se musicista? Teve envolvimento com o underground?

Laura Pleasants – Eu fui pegar a guitarra um pouco tarde. Eu finalmente consegui uma quando tinha 16 anos. Eu tive algumas aulas na ensino médio e, logo que mudei para Savannah para fazer faculdade, comecei a tocar mais seriamente. Eu não tinha ideia de que seria um musicista, mas estou feliz com o caminho que escolhi.

Existem muitas mulheres tocando guitarra em bandas de rock, mas parece que a maioria delas ainda ocupa os postos de vocalista ou baixista. Por que você escolheu a guitarra?

Laura Pleasants
– Eu escolhi a guitarra porque era o instrumento que soava mais legal para meus ouvidos. Além disso, como a maioria das mulheres que via em bandas naquele tempo tocavam baixo ou eram vocalistas, a guitarra parecia ainda mais atraente. Dito isso, eu vejo mais e mais mulheres tocando guitarra a cada dia. Há mais mulheres agora na cena roqueira do que posso me lembrar no passado. Não existem tantas garotas no cenário rock/metal porque esse estilo consiste, principalmente, de um público masculino. Porém, vejo isso mudar mais e mais. E isso é ótimo! Eu tento conscientemente apoiar bandas que têm integrantes do sexo feminino.



Atualmente, a mulherada está conquistando mais espaço no mundo do rock, como você mesma disse. Porém, os homens ainda são maioria. Como você lida com isso? Você já foi discriminada ou algo assim?

Laura Pleasants
– Sempre senti que tenho mais a provar como mulher. Nunca quis ser um símbolo, "a mina da banda com grandes peitos, um monte de maquiagem e roupas seminuas" que chama a atenção dos homens. Não preciso dessa merda. De várias maneiras eu sou como qualquer outro "cara" numa banda, exceto pelo fato de ter uma perspectiva feminina. Acho que ter o viés masculino e o feminino faz as coisas mais interessantes. Não que isso seja melhor ou algo assim, apenas diferente.

O Kylesa manda uma fudida e doidona mistura entre rock psicodélico, punk e sludge. É uma espécie de cruza entre Black Sabbath e Black Flag com apadrinhamento de grupos como Neurosis. De onde vieram essas influências tão diversificadas?

Laura Pleasants – haha… Esse é um resumo muito bom do nosso som! Acho que nunca quisemos soar como um combo de certas bandas em particular – nós certamente nunca nos limitamos a isso. Creio que muito disso é natural. Black Sabbath e Black Flag foram extremamente importantes para mim no ensino médio e realmente deixaram sua marca no meu jeito de tocar. Tanto eu quanto Phillip temos um grande amor pelo punk rock antigo. Ele cresceu sendo punk e skatista. Ele e Brian foram fortemente influenciados por Neurosis. Phillip e eu adoramos qualquer coisa estranha, esquisita e única. Rock psicodélico e indie rock também sempre estão misturados em nosso som. Apenas não escondemos essas influências tanto quanto costumávamos.


Quando o Kylesa compõe uma música pensa: "queremos que essa seja mais hardcore" ou "esta será mais metal", por exemplo?  Ou vocês simplesmente criam uma canção e ele soa naturalmente como tem de soar?

Laura Pleasants – A gente quase sempre cria nossas músicas organicamente. Talvez tenhamos uma direção geral, mas, no final, as músicas se escrevem por si.

Os primeiros discos soam mais agressivos e com uma pegada mais punk. A partir do "Static Tensions" (2009), a banda pareceu tomar um direcionamento mais experimental. Você concorda com essa impressão?

Laura Pleasants – Sim, concordo! Temos evoluído, mas de uma maneira natural. Além disso, a produção ficou melhor com o passar do tempo.

O Kylesa lançou splits com diferentes tipos de banda, como Victims, Cream Abdul Babar e Memento Mori. Qual o motivo dessas parcerias com artistas de diferentes gêneros e países?

Laura Pleasants – Amizade tem mais a ver com isso do que qualquer outra coisa.

Desde o disco "Time Will Fuse Its Worth" (2006) o Kylesa tem dois bateristas. Por quê? Como isso afeta o processo de composição, as gravações e os shows?

Laura Pleasants – Acabamos de completar nosso quarto disco com dois bateristas. Tem sido um processo de aprendizagem, com certeza. A experiência de estúdio é diferente da ao vivo. No palco, é mais pesado e prático. Escrevemos as músicas pensando nos dois bateristas, mas isso não dita o processo de criação.



No site do Kylesa (kylesa.com) é possível comprar alguns pacotes interessantes de produtos. Um deles contém, segundo descrição da página “todas as ferramentas necessárias para imergir a si mesmo num groove psicodélico e pesado”. Isso inclui porta-incenso, luz negra, pôster e esmurrugador (se não sabe o que é, peça ajuda ao google). Você é a favor da descriminalização da maconha?

Laura Pleasants
– Eu realmente acredito que a maconha deveria ser legalizada. O álcool faz estragos maiores ao público em geral do que a maconha jamais fez.

Quais são suas grandes influências? Quais artistas foram essenciais para que você quisesse trabalhar com música?

Laura Pleasants – Slash foi um. Ele era um grande roqueiro e eu tinha uma queda por ele. Tony Iommi foi o maior de todos. Ian MacKeye, Henry Rollins…

O último full-length do Kylesa, "Spiral Shadow", saiu em 2010. Em 2012 a banda lançou "From the Vaults", que traz composições novas, raridades e algumas versões diferentes de faixas que já foram lançadas em registros anteriores. Quando poderemos ouvir um álbum só de inéditas do Kylesa?

Laura Pleasants – Terminamos de gravar um disco novo. Deve sair em maio pela gravadora Season of Mist.

Quais os planos da banda para 2013?

Laura Pleasants – Assim que o novo disco sair, entraremos em turnê.

E o Brasil, quando teremos a chance de ver o Kylesa ao vivo?

Laura Pleasants – Queremos muito ir. Tudo depende de encontrarmos o promotor certo para nos levar. Então, iremos até aí, tocaremos bem alto e levaremos o público em uma viagem. (interessados em trazer o Kylesa para o Brasil podem fazer contato com o empresário da banda pelo e-mail: jarvis.erik@gmail.com)



Para complementar o post, deixo aqui o download dos discos "Time Will Fuse Its Worth" de 2006 e "Static Tensions" de 2009.

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