O Cúmplice - Marchando para o sul


Ao menos para mim, O Cúmplice, de São Paulo, foi uma das maiores surpresas desse ano no underground nacional. Com influências que vão desde o punk caótico de bandas como Anti-Cimex e Discharge, passando pelo peso de grupos de culto ao bode como o High On Fire e Black Sabbath e ainda com algumas pitadas de grind e death, O Cúmplice manda um som único, pesadíssimo, furioso e de extrema qualidade. O EP 7'' que eles lançaram no final do ano passado, com três músicas, foi uma das maiores pauladas que ouvi ultimamente. Coisa impressionante mesmo.

Fiquei sabendo de antemão por meio de amigos agitadores da cena de Porto Alegre que os caras iriam fazer uma tour aqui pelo RS no final de maio e início de junho, então rolou a oportunidade de fazer uma entrevista com os caras. Falamos com o Marcelo, vocalista da banda (e também um dos idealizadores do projeto "Hardcore 90 - Uma História Oral", que acho que é assunto pra outro post no futuro), sobre a história d'O Cúmplice, suas influências, sobre o giro que os caras vão dar aqui pelo RS e outras marotices. Confiram!


Apesar da banda ser enquadrada dentro do crust, O Cúmplice apresenta um estilo um pouco peculiar, mais trabalhado e fugindo um pouco dos "padrões" do estilo. Quais são as influências da banda?

Marcelo:
Ouvimos muita coisa, e no fundo tudo isso nos influencia na forma de compor e tocar. Sempre tentamos criar algo que não seja muito “quadradinho”. Acho que muitas bandas veem mérito em soar o mais parecido possível com suas influências. Mas pessoalmente não me interesso em fazer as coisas dessa forma. A gente absorve de tudo um pouco e emprega nesse “formato” de som que criamos para nós. Nós sabemos o que queremos fazer e como soar. A base é um metalpunk agressivo, esse é sempre um ponto de partida, mas aos poucos, outros elementos de crust, de death metal, de hardcore mais clássico vão sendo agregados. No começo da banda ouvíamos muito High on Fire, Cursed, mas como não temos tanta competência, o som ficou desse jeito que as pessoas conhecem...

Todos vocês já tiveram experiência em outras bandas anteriormente, inclusive algumas bem reconhecidas, como o I Shot Cyrus e o Abuso Sonoro, por exemplo. Como a banda se formou e o que motiva vocês a ainda estarem nessa? Algum de vocês atualmente toca em alguma outra banda além d'O Cúmplice?

Marcelo:
Pouca gente sabe, mas a banda existe a quase oito anos. Eu e Alessandro montamos a banda, numa época que dividíamos apartamento. Já tocávamos juntos noutra banda que foi o embrião do Noala. Eu tocava no Constrito que estava meio que entrando em hibernação. Mas em comum, tínhamos a vontade de montar uma banda que juntasse o que gostávamos de velho punk (Discharge, Anti-Cimex, Varukers e outras) com elementos do velho metal (Motörhead, Venon, Black Sabbath e afins). Da formação original sobramos apenas nós.

O princípio de amizade é o que nos guiou até aqui e deu o laço que mantem essa formação. Afinal, alguns na banda vêm tocando juntos, de banda em banda, a pelo menos uns 15 anos. Com Alessandro toquei no Intifada (proto-Noala) e no Diáspora, nessa última estava o Cauê e o Ricardinho (No Violence) que foi o baterista original d'O Cúmplice. Com o Cauê eu toquei no Algoz mas nem chegamos a gravar. Quando o baixista original saiu, entrou o Eduardo Vaz (hoje no Urutu) que tocou comigo no L'Enfer e tinha o Luiz que hoje toca bateria conosco. A Karen sempre foi uma amiga próxima, e quando Eduardo saiu, foi mais do que natural ela ocupar o lugar dele.

Acho que falo por todos quando digo que gosto das pessoas envolvidas nesse projeto. Continuo gostando de música rápida e pesada, onde posso exercitar o jeito de escrever e falar do que me incomoda ou o que me dá raiva. A banda é mais que um meio de por ideias, é um exercício de criatividade, de se reinventar, de brincar um pouco com o que se sabe fazer e aprender mais com os amigos.

Além d’O Cúmplice toco noutro projeto, que ainda não tem nome, é um metal mais experimental, lento. Ainda está bem verde, mas tem me divertido e sido desafiador. O Alessandro toca no Noala como falei. O Cauê tem vários projetos, mas entre outras coisas ele toca no The Harm e eventualmente no Fim do Silêncio.



De material lançado, O Cúmplice tem um split com a banda carioca de stoner rock Te Voy A Quebrar e um EP 7'' com três sons. Esse ano vocês pretendem lançar material novo, já estão planejando um full?

Marcelo: Nosso processo de composição é lento. Temos alguns sons novos que ainda estão sendo “amadurecidos”, ou seja, tem a estrutura montada, mas está passando por ajuste. A ideia é que quando chegarmos a uma quantidade legal, entremos em estúdio e façamos o primeiro full da banda. De preferência em LP. Pretendemos que seja até o fim do ano, mas somos enrolados e com a gente nada é certo ou definitivo nesse quesito. Estamos tentando lançar mais um split com alguns sons, que separamos da sessão de gravação do EP. Esse split talvez saia na forma de outro 7”, ainda esse ano.

Pra quem assiste de fora e está antenado nas novidades, a cena de São Paulo parece ser bastante rica, com várias bandas surgindo o tempo todo e shows rolando direto. A coisa é assim tão bonita como se parece ou a realidade é outra?

Marcelo: A cidade é grande, e a cena hardcore (underground, alternativa, ou como você preferir chamar) hoje tem muito mais gente envolvida do que anos atrás. Paradoxalmente, existe tanta coisa rolando que fica até difícil acompanhar. O que eu acho legal disso é que tem para todo gosto. Se você curte crust, ou mosh, ou algo mais experimental, grindcore ou metal extremo, punk tradicional, tem sempre algo rolando. O que não quer dizer que esteja todo mundo em sintonia. Ou que exista um “espírito de irmandade” amarrando tudo isso. O que existe são pessoas fazendo o que gostam. Tocando com quem tem afinidade. E no meio disso existem as relações humanas, que podem ser amigáveis ou conflituosas. Sinceramente, não me preocupo com isso. Falando por nós, nossos shows em geral são pequenos, basicamente com amigos. Se mais gente chegar, será bem vindo. Se ficarmos na mesma também não me incomodo. Quando falo isso, sempre lembro do encarte da discografia do Rorschach, onde eles falavam algo como “Rorschach fez o primeiro show tocando para 20 pessoas, e fez o último tocando para 6”. Não é bem isso, mas é quase.




Final do mês de maio e no início de junho a banda estará fazendo um giro aqui pelo Rio Grande do Sul. Quais são as expectativas? Vocês conhecem alguma coisa sobre a cena daqui? Se sim, citem algumas bandas gaúchas que vocês gostam.

Marcelo: São as melhores possíveis, vai ser a primeira vez da banda nessa região e vai ser a nossa 2ª tour em muitos anos. Estamos ansiosos, é sempre bom viajar para tocar. Rever amigos, conhecer gente nova. Quanto ao que conheço daí bom, estou meio desatualizado, e a tour vai ser legal para conhecer bandas novas, assim no sopetão quando me falam do Rio Grande do Sul, o que me vem a mente é: DeFalla, Replicantes, 3D, Pupilas Dilatadas. Ornitorrincos (piro na banda!) Velho (ex de Câncer), xAMORx, Gaúcho da Fronteira (hehehe) e o antigo Facão 3 listras.




Recomendem uma sonzeira marota pra gurizada que acessa o blog:

Marcelo: Cara, de bandas nacionais recomendo fortemente: Meant to Suffer, StillxStrong, The Black Coffins, Infamous Glory, Defy, Noala, Onitorrincos, Deaf Kids, Inner Self, The Voy a Quebrar, Tuna, Reiketsu, Rakta, Test, Cadáver em transe, Clearview e Bandanos.

De som internacional no momento, estou com fixação com bandas com a palavra “ômega” no nome: Omega Massif (Alemanha), Deathspell Omega (França), Alpha & Omega (Estados Unidos), hehehe. Além disso, Gust (Suécia), Hierophant (Itália), Rise and Fall (Bélgica), Baptists (Canadá), Doomriders (EUA), Orchid (EUA). Também ouço bandas velhas com certa frequencia: Napalm Death, Morbid Angel, Bolt Thrower, Neurosis, Integrity, Earth Crisis, His Hero is Gone, Sepultura, Converge, Godflesh, Orbituary, Both, Burndt by the Sun, Eyehategod, Brutal Truth, Motörhead, Terrorizer, Black Sabbath e por aí vai…

Façam suas considerações finais: agradecimentos, xingamentos, dê um recado para os leitores do blog, mande os tomar nas pregas, deixe contato para shows... Esse espaço é livre!

Marcelo:
Valeu aí rapaziada, pelo convite da entrevista. Um obrigado especial a todos os envolvidos nos preparativos e correrias da tour. Tenho certeza que nossa experiência aí será a melhor possível. E quem puder apareça para ver que somos muito piores ao vivo do que gravados, hehe.

O Cúmplice é:
Marcelo Fonseca – voz
 Alessandro França Soares – guitarra
Cauê Nascimento – guitarra
Karen Pellegrini – baixo
Luiz Sabateh – batera

Página d'O Cúmplice no facebook
Ouça aqui o EP 7'' d'O Cúmplice

Pra quem for do RS e estiver interessado, essas são as datas da tour aqui pelo estado:
30/05 - Black Stone, em Porto Alegre
31/05 - Eclipse Pub Bar, em Sapucaia do Sul
01/06 - Vó Zuzu Atelier, em Porto Alegre, no final da tarde (marketing pessoal - Viruskorrosivus, banda minha e do Rodrigo, toca nessa gig)
01/06 - B.I.L. na Musicollege, em Canoas, na noite

Para mais informações dos shows, fiquem ligados no facebook dos caras.

2 thoughts on “O Cúmplice - Marchando para o sul”

  1. Tenho muito orgulho por ter ajudado a lançar o EP deles pelo meu selo, Cipreste Negro Recordas Uma das melhores bandas da atualidade

    Eu sempre cito a banda como uma mistura de Disrupt com High on Fire

  2. Logo de cara quando fui ouvir o som dos caras vi que tu tava envolvido no lançamento do disquinho. Porra, sensacional mesmo. Uma das coisas mais brutais que ouvi nos últimos tempos. Vai ser um prazer imenso tocar junto com esses caras.

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