Selos independentes, parte I - Man's Ruin Records


Os selos independentes estão entre os maiores responsáveis por manter a chama do underground acesa. Sempre remando contra a maré, a maioria deles lança e distribui discos de forma completamente DIY. Alguns mais notórios, outros nem tanto, é inegável afirmar que sem eles, sejam grandes ou pequenos, as coisas na música seriam muito diferentes hoje em dia. Creio que tentar explicar o que é e toda a importância dos selos independentes é chover no molhado, ainda mais que hoje em dia estamos todos muito acostumados com esse conceito. Como a proposta desse blog sempre teve a ver com a divulgação da música underground e alternativa em geral, achei que seria uma boa começar uma série de posts sobre selos independentes. Aliás, o Rodrigo já fez isso, num breve post sobre o selo inglês Church of Fuck, só não sei porque só agora decidi aprimorar essa ideia. De qualquer forma, o primeiro post dessa série é sobre o selo americano Man's Ruins Records, um dos mais prolíficos e mais interessantes selos dos anos 90.


O selo Man's Ruin foi fundado em 1994 pelo artista Frank Kozik, assim que se mudou para San Francisco. Kozik se sentia desligado da cena de San Francisco na época, cena que aliás achava uma grande merda, alegando que havia muitos panelismos e muita gente "falando muita merda e não era nada divertido", em suas próprias palavras, diferente de como era no Texas, onde ele era um dos caras mais ativos na cena underground. Kozik se sentia mal por estar parando de frequentar shows e trabalhando apenas fazendo artworks para as bandas na região e decidiu fundar o selo, a princípio, para lançar em vinil material de bandas que ele realmente gostava, na esperança de se envolver com a música de forma íntima novamente.

Um dos diferenciais do selo em relação aos outros da época é que Kozik fazia o artwork de basicamente todos os discos que fossem lançados por ele, além da ausência de contratos e envolvimento nulo em questões internas das bandas. O Man's Ruin apenas lançava os discos, fazia a distrubuição e dividia os lucros com as bandas em 50/50 - uma divisão bastante justa e que acabava sendo benéfica tanto para o selo como para a banda. Por muitos anos essa fórmula deu certo, e o Man's Ruin foi um dos maiores e mais prolíficos selos dos anos 90, tendo um catálogo imenso com bandas dos mais variados estilos, indo do punk ao garage, passando pelo stoner, death metal e hardcore. Muitas bandas bem conhecidas lançaram material pela Man's Ruin, como o Kyuss, Hellacopters, Entombed, High on Fire, Queens of the Stone Age, Fu Manchu, Alabama Thunderpussy, Turbonegro, Zeke e Electric Wizard, por exemplo, assim como algumas bandas totalmente desconhecidas, como o Drunk Horse, Begotten, Soulpreacher e o Hookers. Como vocês podem perceber, há muita diversidade entre as bandas lançadas. Kozik realmente não ligava para rótulos ou ideologias, ou o quão famosa a banda era ou não. Se ele gostasse da banda, lançaria o disco.


Kozik iniciou o selo com o seu próprio dinheiro e nunca teve pretensão nenhuma de crescer com ele. No início, a proposta do selo era lançar apenas material em vinil, mas com o passar do tempo, começaram a lançar os discos em CD também. E o selo foi crescendo de forma natural, na mesma medida que as bandas cujo material foi lançado pela Man's Ruin começavam a ficar mais populares. Mas segundo Kozik, nunca houve planejamento algum, e o selo cresceu no seu próprio ritmo. De início, os discos eram distribuídos pela Mordam, uma espécie de distribuidora de selos independentes, que já trabalhou não só com a Man's Ruin mas também com a Jade Tree e Alternative Tentacles, pra citar alguns selos mais notáveis, além de terem lançado também discos do Faith No More e do Negativland, entre outros. Depois, os discos começaram a ser distribuídos pela RED e pela House of Kicks. Porém Kozik enfrentou uma série de problemas com o selo trabalhando com estas distribuidoras, incluindo má distribuição dos trabalhos do selo. Má distribuição = vendas baixas. Kozik começou a se endividar tanto que já não tinha mais dinheiro para manter o seu escritório e a hospedagem do site do selo, além de estar devendo dinheiro também para a gráfica que imprimia os pôsteres que geralmente vinham com alguns dos lançamentos.

Esses problemas começaram a se agravar em 2001 e levaram o selo ao seu fim definitivo, em 2002. Apesar disso, Kozik nunca passou a perna em nenhuma das bandas dentro do selo. O último lançamento da Man's Ruin foi em 2001, o disco do Begotten, banda de doom metal nova iorquina bastante desconhecida. Atualmente os discos da Man's Ruin estão fora de católogo, mas como Kozik não assinava contratos com as bandas (os direitos autorais das músicas ficavam todos para o artista em questão), alguns discos, como os de bandas como Hellacopters, Turbonegro e Fu Manchu, por exemplo, acabaram sendo relançados por outros selos e gravadoras. Atualmente Kozik, um artista que desde sempre foi ligado à escola do stuckismo, dedica-se apenas ao seu trabalho gráfico, e continua inclusive fazendo artes para as mais diversas bandas do universo underground


Deixo aqui para quem interessar o download da coletânea "After School Special: A Man's Ruin Sampler", lançada em 2000, coletânea de divulgação do selo, contendo alguns sons dos "carros chefe" da Man's Ruin na época: Hellacopters, Kyuss, Queen of the Stone Age, Desert Sessions, Unida, Fu Manchu, Gluecifer, Entombed, Gaza Strippers, entre outros.

One thought on “Selos independentes, parte I - Man's Ruin Records”

Leave a Reply