Selos independentes, parte III - Good Vibrations Records


Voltando à série de postagens sobre selos independentes, desta vez falaremos sobre a Good Vibrations Records, um dos selos mais importantes da história do punk rock. O selo ficou muito conhecido nos anos 90 após Kurt Cobain, quando passou por Belfast e ficou hospitalizado, proferiu as seguintes palavras: "Eu não ligo se morrer aqui, porque é o lar da Good Vibrations Records". E claro, além disso, foi um selo essencial naqueles primeiros dias do punk rock na Irlanda do Norte. Muitas vezes, a história do selo se confunde com os primórdios do punk rock naquele país.

Para falar da história do punk naquele país, é um tanto quanto impossível não falar do contexto político e social da época. Belfast, nos anos 70, era uma das cidades mais violentas do mundo. A Irlanda do Norte sofria com uma onda de violência por motivos políticos e divergências religiosas que dividem o país até os dias de hoje, embora atualmente a situação esteja muito mais tranquila, após muitas mortes sem sentido, mas não totalmente resolvida. Para muitos jovens da época, que viviam na pobreza, sem a menor perspectiva de futuro, entrar em grupos paramilitares como o IRA era o caminho natural e morrer era muito fácil. O punk surgiu na Irlanda do Norte ao mesmo tempo que surgiu na Inglaterra, por conta da proximidade geográfica, e lá, levando em conta todos os aspectos políticos e sociais, "no future" para os jovens passava a ser muito mais do que o verso de uma música dos Sex Pistols, que acabaram se identificando com toda a fúria daquele novo movimento social e musical que estava surgindo, onde acharam o melhor meio de se expressar. Naturalmente, surgiram inúmeras bandas punks naquele país, seguindo a filosofia do faça você mesmo, de que qualquer um com instrumentos baratos pode tocar em sua garagem e se expressar através da música. Uma das principais características do punk irlandês nos seus primórdios, em 1976 e 1977, é que as bandas faziam um som bastante melódico em relação ao punk inglês, com muita influência powerpop e bubblegum, só que é claro, muito mais tosco.

As primeiras bandas punks norte-irlandesas foram o Rudi, The Undertones e The Outcasts, além de outras menos conhecidas como DC9 e Starjets, todas formadas entre 75 e 77. Ainda são de lá as clássicas Boomtown Rats e Stiff Little Fingers, mas que logo de início já se mudaram para a Inglaterra, vendo que em seu país teriam bem pouca chance de gravar alguma coisa. E é aí que entra a Good Vibrations Records e nosso herói Terri Hooley.


Hooley já era dono de uma pequena loja de discos em Belfast que se chamava Good Vibrations (homenagem ao som do Beach Boys de mesmo nome), simpatizou com o punk após ver o Rudi e o Outcasts ao vivo. Conversou com as bandas e resolveu dar uma força para eles conseguirem shows. Em certa ocasião, Hooley falou como as coisas eram o tanto quanto difíceis para as bandas punks na época: "Ninguém queria gigs punk naquela época e a única maneira de conseguirmos fazer um era ligar para os locais e dizer que estava organizando uma festa de 21 anos de sua filha e que tocariam algumas bandas. Quando eles descobriam que na verdade era uma gig punk, era tarde demais...".

Depois de organizar uns shows de punk rock que sempre acabaram em confusão, com a polícia mandando todo mundo pra casa na base da porrada (sério? conte-me mais...), decidiu que era hora de botar mais lenha na fogueira. Vendo que a possibilidade de alguma daquelas bandas gravarem por alguma major era praticamente zero, decidiu criar o seu selo, a Good Vibrations Records. O ano era 1977 e o punk já era um verdadeiro fenômeno na Inglaterra e na Europa inteira. O Clash já tinha tocado em Belfast e o Stiff Little Fingers já lançara seu primeiro single, "Alternative Ulster". O primeiro compacto da Good Vibrations foi o clássico "Big Time/Number One" do Rudi, que saiu em 1978.



Apesar de ter mandado diversas cópias para diversas rádios e revistas do Reino Unido, o compacto da banda teve repercursão quase nula. Logo depois, a Good Vibrations lançou os singles do Outcasts e do Victm, e em setembro, foi lançado então o maior clássico do selo: o EP "Teenage Kicks" do Undertones. A princípio nem Hooley queria gravar a banda, e esse EPzinho foi totalmente ignorado até cair nas mãos do mestre John Peel. Peel ficou tão entusiasmado ao ouvi-lo que chegou a tocar duas vezes seguidas em seu programa na BBC Radio, algo que até então, nunca acontecera no seu programa.



Em seguida a Sire Records procurou o Undertones para contratá-los. A banda aceitou, mas queriam Terri Hooley como seu empresário. Hooley ficou honrado com o convite mas recusou e disse que não estava de saída de Belfast, pois queria continuar por lá ajudando as bandas da região. E o êxito musical do EP do Undertones impulsionou a Good Vibrations violentamente, que num espaço de dois anos lançou 15 compactos e dois álbuns.

O problema é que Terri Hooley era muito honesto com as bandas e não tinha senso comercial nenhum para o ramo, e não suportou uma das muitas crises econômicas de seu país. A Good Vibrations teve então que fechar as portas em 1980. Chegaram a lançar alguma coisa entre 1981 e 1982, mas com muito mais dificuldade do que no próprio início do selo. Ainda nos anos 90, com a volta do interesse pelo punk rock, o selo voltou a respirar, porém, mais uma vez não resistu à feorocidade do mercado e voltou a fechar. Em 2000, a Good Vibrations voltou à ativa e lançou dois discos: um CD-single do Twinkle e o álbum "Ooops" do Social Scum. A discografia do selo pode ser conferida aqui.

Apesar do legado relativamente curto, a Good Vibrations Records foi essencial para o surgimento e desenvolvimento do punk rock na Irlanda do Norte, tornando-se referência até hoje quando toca-se no assunto punk rock irlandês e punk rock 77 no geral.

Para conhecer um pouco do trabalho promovido pelo selo e os primórdios do punk rock irlandês, baixe aqui a coletânea "Good Vibrations - The Punk Singles Collection", com as faixas lançadas em compactos entre 1977 e 1980. Material de primeira!

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