Shade of Mankind is upon our graves! - Entrevista com Roderick Deimos


Formada em 2011 por Roderick Deimos como uma one man band de crust/grind, a Shade of Mankind é uma das bandas mais brutais da atual cena porto alegrense. Desde o EP "Fallout", lançado no final de 2011, Deimos mostrou que veio para a cena para fazer a diferença. O dito EP, totalmente tosco, sujo e pesado, tem um ar sombrio, apocalíptico, puta climão de fim do mundo. Uma espécie de Doom pós-apocalipse com algumas pitadas de Ministry (talvez por conta do "digi-beat", já que foi gravado com bateria programada) e letras totalmente negativas e "na cara", com uma gravação totalmente escrota, mas de alto nível, considerando as condições em que foi gravada (no Audacity e com um mic de PC dos mais fuleiros). Crust!

No início de 2012, a Shade of Mankind deixou de ser um projeto e virou banda, e com isso foi adicionando muito mais influências. O crust e o grind se misturam agora com elementos de death e black metal, hardcore, sludge e tudo que há de desgracento, extremo e podre na música. A banda toca na segunda edição da Bad Music Sessions, junto com os veteranos da Morterix e a Extr Sicks, que estará fazendo seu show de estreia. Fiz uma entrevista com Roderick Deimos, onde falamos um pouco sobre a Shade of Mankind, uma banda que tem muito à dizer e que está na cena para fazer a diferença, para fazer com que o hardcore e o metal voltem a ser uma ameaça.


A Shade of Mankind é uma banda que tem influências diversas, indo do black metal até o crust, passando pelo grind, death, hardcore e até mesmo pelo punk japonês e o metalcore de bandas do H8000. De onde partem todas essas influências? Cite as bandas que você considera uma referência para o som da Shade of Mankind.

Deimos - Bem, sempre fui uma pessoa que curtiu música dos mais variados gêneros e tô SEMPRE querendo botar algum detalhe diferente ou referencial em minhas músicas. Até porque o próprio conceito da Shade Of Mankind é criar o som mais agressivo, catártico e perturbador possível, logo misturar gêneros com essas características é inevitável, não podemos ser impactantes se ficarmos nos baseando em fórmulas prontas.

Quanto a bandas que nos são referência, cada membro que fez parte disso tem sua gama de influências, em geral temos algumas em comum, mas as influências principais de cada indivíduo são mais fluentes na música do que uma coisa mais geral.

Mas citando nomes, temos um baterista muito focado no Death Metal (Cannibal Corpse, Suffocation, Hate Eternal, Nile, Severe Torture, Krisiun), um baixista mais voltado ao thrash, crossover e metal old school (Celtic Frost, Exodus, Demolition Hammer,Venom, Ratos de Porão, Overkill), um duo de guitarras com influencias mais variadas e com um pé no Black metal (Gorgoroth, Dissection, Watain) e até mesmo o Death Sueco (Grave, Entombed) e no meu caso, me concentro mais na linha do crust, grind e essa turma do hardcore que procura fazer algo mais diferenciado, sombrio e pesado (Integrity, Cursed, Unruh, Catharsis, Koreisch), até me inspiro em bandas com performances agressivas como GISM, Kickback, Gehenna e Hoax. O leque de influências é muito grande...

A banda começou como uma one man band crust em 2011, você gravava tudo em casa e usava bateria programada. Mesmo gravado de forma precária, o primeiro EP da banda, "Fallout", teve boa repercursão e é digno de elogios, levando em conta as condições em que o "Fallout" foi gravado. Muito ouço falar que a produção tem um quê de Ministry e metal industrial, isso foi proposital? Fale um pouco sobre a gravação desse EP.

Deimos - Bem, a gravação do EP foi algo catártico pra mim, saí de uma banda na qual estava bem descontente com a orientação sonora que ia, logo queria fazer o som podre e violento que sempre quis fazer, mas tinha um problema: eu não tocava porra nenhuma e não conhecia ninguém que fizesse esse tipo de música. Porém a vontade foi maior e aprendi esses esquemas de gravar em casa e comecei a gravar as músicas, peguei (e depois comprei) o baixo de um amigo, vi tutoriais, pedi ajuda a pessoas que já faziam esse tipo de gravação em casa.

Sobre a influência de Ministry, sempre curti a banda, porém em momento algum pensei neles quando compus o álbum, na época estava bem interessado no crust do Doom e Skitsystem e o grind do Nasum e Terrorizer, talvez tenha sido influência indireta na produção do álbum, até por causa dos efeitos de vocais que usei, mas de qualquer jeito esses comentários podem ser considerados grandes elogios.




Como e quando a Shade of Mankind passou de ser um projeto one man band para ser uma banda propriamente dita? Os outros membros da Shade of Mankind tem projetos paralelos? 

Deimos - Desde que criei o projeto, já tinha essa vontade de fazer o negócio ser real e envolver outras pessoas, pelo menos para shows ao vivo. No começo eu convidei amigos para tocar em shows e depois vendo a formação, conforme fui criando afinidades com alguns membros, comecei a pensar a tornar isso uma banda, porém tive vários problemas de formação (da formação original, só tem o baterista) e acho que agora conseguimos estabilizá-la. Os ensaios e resultados dos mesmos tem me agradado bastante e estamos ansiosos (eu pelo menos sim) para demonstrá-los ao nosso público/vítimas. 

De projetos paralelos ativos, temos membros participando da Viruskorrosivus e I Am Nihil, por exemplo, mas os outros membros estão formando suas outras bandas paralelas e estão desenvolvendo elas conforme o tempo passa, alguns deles tiveram participação em outras bandas (Ark Six, My Own Monster e Bloody Violence, por exemplo), o engraçado e curioso é que no fim todos estão focados na Shade mesmo, haha.

Atualmente a banda está gravando o seu debut "We Are the Plague". Como está sendo a gravação desse disco? Há alguma previsão de lançamento, de como será lançado?

Deimos - A gravação do debut está sendo demorada, porém gratificante. Tivemos problemas técnicos, a própria questão de não estabilizar a formação e etc. Porém agora estamos finalizando as gravações de alguns detalhes extras de guitarras, depois só falta as participações especiais que marcamos. Sobre a previsão de lançamento, não temos uma data específica ainda, porém nossa meta é deixarmos ele para streaming em dezembro desse ano. O lançamento físico vai ser depois pois os planos de lançamento dele serão um pouco mais ambiciosos e complexos, logo não garantiremos isso tão cedo.


Além do som, também chama atenção a estética e temática da banda. Fale um pouco sobre isso.

Deimos - Sempre tive uma curiosidade e gosto por bandas com esse apelo “além da música”, a questão de estética e temática. O que a banda demonstra é algo complexo na verdade, falamos de individualidade e a decadência do ser humano civilizado e seus dogmas, de como as coisas não são tão “preto e branco” e os paradoxos das dicotomias. Esse tipo de pensamento e atitude já foi demonstrado em vários formatos, não se há um nome específico pra isso, mas gosto de denominá-lo “rebelião psíquica”.

Somos indivíduos cansados dos grupos e dogmas que nos cercam e corroem aqueles a nossa volta, o que fazemos é uma catarse e desconstrução dessas mitologias que a própria civilização criou sobre seus deuses e demônios. Não estamos aqui para mostrar caminhos ou levantar bandeiras, já estamos traçando o nosso caminho e queimando todas as bandeiras que tentarem usar para nos representarmos, sabemos quem nós somos. As pessoas temem o caos pois elas querem o controle total, não querem se adaptar, querem viver no conforto de suas ordens e ideais prontos, queremos causar nelas esse desconforto, o desconforto do questionamento e da não conformidade.

A natureza é caótica, sempre em mudança constante, o homem que criou essa falsa idéia de tradição, se pararmos pra ver bem mesmo, as únicas tradições que a humanidade sempre manteve foram a depravação, a violência e o catarse. Porém muitos tem medo de abraçar as feras (alguns também chamam instinto) que se habitam dentro de nós, é uma questão de conciliação com eles, não de domínio.

Não é algo de chutar latas nas ruas e lutar contra sistemas, pregar revoluções, mas sim uma questão de sobrevivência psíquica diante o controle e amarras do “bem comum”. É sobre saber o que acontece na sua mente e como você lida com isso e seus instintos, meio como se fosse uma anarquia psicológica e espiritual.



O que vocês acham da sua cena local? Recomende algumas bandas locais que vocês apreciem.

Deimos - Essa questão de cena é algo engraçado, talvez realmente tem a ver com a cena teatral, já que os pregadores da mesma escrevem ensaios exuberantes falando e culpando si mesmos na terceira pessoa do plural. Um simulacro de consciências pesadas que querem culpar alguém por “eu não atingir o sucesso/aceitação que esperava”, no momento que estamos num meio como o hardcore e metal, formado por supostos párias sociais, acho que a aceitação de uma audiência deveria ser a menor e mais inexistente das preocupações, vai entender.

Um bom exemplo de como isso é paradoxal, lembro de certas pessoas que torciam o nariz para mim por eu fazer tudo por mim mesmo e não fazer um som de acordo com o que a tal da “cena” fazia, logo era deixado de lado. Porém em uma das bandas que toco paralelamente, vejo esses mesmos que xingavam agora me elogiar pois estava tocando com alguém que era de uma banda “histórica” da tal cena, como se eu fosse contratado ou abençoado por ele.

Independente dessa palhaçada e falácia que vemos de alguma parte, acho que temos grupos interessantes e formados de pessoas que estão cansados dessa ladainha. Enfim, recomendações são das mais variadas: bandas como Sistema de Mentiras, Change Your Life, Morterix, Solomon Death, Hangovers, In Torment, Evil Emperor, Natural Chaos, Extr Sicks, Imorale, Living In Hell, Além Do Fim, Ornitorrincos, Bad Taste, Rotten Filthy, entre outros grupos que estão que fazem um som mais único e não tendem a repetir fórmulas rechaçadas dessas tais tendências. 


Recomende algum som maroto pra gurizada ouvir.

Há tantos, acho que fica melhor de cada membro do grupo fazer o seu aqui:

- Deimos: Primeiramente os colegas audioterroristas da Fit Of Rage, Martyr’s Tongue, VVeltschmerz, Malware, Albura, Ad Dajjal, Pesimista, Garden Of Stained Graves , Column Of Heaven, Horders, Heksed, VVlad, Cape Of Bats, Withdrawal, Godbreaker, Altar, Corpo Morto, Koreisch, Unruh, Bloodlet, Catharsis, Integrity, Gehenna, Ilsa, Seven Sisters Of Sleep, Rot In Hell, Vegas, O Cúmplice, Deaf Kids, Life Is A Lie, God Demise, Teenage Suicide, Shit Heroes entre tantas outras que poderiam preencher uma lista telefônica.

- Zoltar: Prophecy (Brasil), Korzus, Xanthochroid, Beyond Fear, Armed For Apocalypse, While She Sleeps, Sybreed, Hacktivist, Deadlock, Neurotech, Satyricon, Gojira, Ego Fall, Psyclon Nine, The Browning, Rise of the Northstar, Dalriada, Kontrust, Chthonic, Phinehas, Enter Shikari, Yaksa, Myrath, The Acacia Strain, In Extremo, Anime Dannate (não tem nada a ver com mangá), Dreamshade, Trash Talk, Tracedawn, Drygva, Gorgoroth, The Ocean, Woods of Ypres, Fellsilent, Claustrofobia, Ego Fall, Katatonia, Carach Angren, The Agonist, Sylosis.

- Schizo: D.R.I., Exodus, Demolition Hammer, At War, Motörhead.

- Yautja: Behemoth, Belphegor, Hate Eternal, Nile, Ayin, Nephasth, The Ordher, Krisiun, Brujeria, Escarnium, RxCxEx, Jig-Ai, Cerebral Bore, Defeated Sanity, Dawn Of Demise, Cryptopsy, Claustrofobia, Cattle Decapitation, Devourment, Dying Fetus, Dyscarnate, Exhumed, Impaled, Carcass, F.K.U., Gorerotted, Macabre, Napalm Death, Origin, The Faceless, Revocation, Soreption, Vomitory, Deicide, Marduk, Aeon, Asesino, Birdflesh.

- Twiggy: Além das bandas locais e influências já citadas, aqui vão outras como The Faceless, Carnifex, Fleshgod Apocalypse, Aborted, Dissection, Blood Red Throne, Carcass, Cattle Decapitation, The Black Coffins, Watain, Immolation, Murder Construct, Ragnarok, Setherial, Fallujah, Incantation, Impaled Nazarene, Misery Index, 1349, Dark Funeral, Marduk, Goatwhore, God Seed, Tsjuder, Carpathian Forest, Broken Hope, Coldworker, Cryptopsy, Desecrated Sphere, Haemorrhage, Hour Of Penance, Lacerated and Carbonized, Kraanium, Pathology, Pig Destroyer, Septicflesh, Spawn of Possesion, The Black Dahlia Murder, Avulsed, The Bridal Procession, The Modern Age Slavery, Torture Killer, Vomitory, Waking the Cadaver, entre muitas mais que poderia ficar falando por horas e horas e horas...



(filmagem por Mekaniquis)

Considerações finais: mande beijos para a mãe ou todos tomar nas pregas. Espaço livre!

Deimos - Aos que apóiam nossa música, agradecemos. Aos que sentem repulsa por ela, agradecemos mais ainda, pois criamos ela para nós, não para vocês.


Shade of Mankind é:
Deimos - Vocal
Zoltar - Guitarra solo
Twiggy - Guitarra base
Schizo - Baixo
Yautja - Bateria e backin' vocals

Bandcamp
Página no facebook

Leave a Reply