National Wake - Confrontando o Apartheid com muito barulho e subversão


Quando pensamos em punk rock, de cara já pensamos em The Clash e Sex Pistols, na gloriosa Londres de 1977, de uma juventude raivosa gritando contra a monarquia e sem perspectiva de futuro, ou então dos garotos entediados da blank generation de Nova York, como os Ramones e os Dead Boys. Não tiro o mérito dessas bandas, que aliás sou muito fã, mas o punk vai muito além disso.

Enquanto nos países desenvolvidos, por volta de 1976 à 1978, o punk surgia como uma resposta ao tédio e a falta de perspectivas de uma juventude degenerada, nos países de terceiro mundo, logo quando apareceu, foi visto pelos jovens rebeldes como uma perfeita arma contra regimes autoritários e uma resposta à opressão vivida no dia a dia. Foi assim na América Latina, que ainda no final dos anos 70 vivam sob os pesos das botas, fuzis e capacetes, e também dos países africanos, que entravam em processo de independência, e no caso específico da África do Sul, viva um regime racista e autoritário num país de maioria negra. E foi nesse contexto que surgiu na África do Sul uma banda pioneira: o National Wake.

Antes do National Wake, o punk não era exatamente uma novidade na África do Sul. Bandas como Wild Youth já haviam surgido e fazendo pequenos shows em universidades para públicos multirraciais (o que era probido) já tinham feito um certo barulho, inclusive com shows interrompidos pela polícia. O Wild Youth, de Durban, foi uma das primeiras bandas a trazerem o punk rock para a África do Sul.



Mas o National Wake, de Johannesburgo, formada por Ivan Kaye, juntamente com os irmãos Gary e Punka Khoza na “cozinha” e o guitarrista Steve Moni, conseguiu chamar ainda mais a atenção por um fato muito simples: foi a primeira banda multirracial da história da África do Sul, com integrantes brancos e negros, em pleno regime de apartheid. Desafiando as leis raciais da época e um governo totalmente autoritário, o National Wake foi a banda punk sul-africana de maior destaque e uma das mais relevantes do punk rock africano, por ter representado um marco corajoso e ter batido de frente com um regime racista para fazer som. E mais que isso: a banda tinha letras de cunho totalmente político e social. Sua música mais conhecida, "International News", é uma crítica em relaçãoa censura da imprensa sul-africana e do controle que o governo exercia sobre a informação.


 Logicamente, a banda sofreu diversas perseguições por parte do governo sul-africano, com diversos shows interrompidos pela polícia e inclusive resultando em tretas violentas e até mesmo na prisão dos membros da banda. Apesar disso, a banda seguia suas apresentações em pequenos centros culturais e universidades, sempre para públicos multirraciais, e lançaram um LP em 1981, de forma totalmente independente. O disco, autointitulado, é uma das melhores coisas não só do punk africano, como da primeira geração do punk rock, que vai de 76 até 82. Na época, foram lançadas apenas 700 cópias, sendo a edição original um raríssimo e precioso item de colecionador. Pelo menos foi assim até 2011, quando o tal LP foi relançado pela gravadora Light In The Attic. Na época que o disco foi lançado, chegou até as mãos de John Peel, na Inglaterra, que tocou "International News" em seu programa na BBC, que chamou a atenção inclusive do dono da Atlantic Records, Ahmet Ertegun, que demonstrou grande interesse pela banda, mas no fim, as negociações acabaram não resultando em nada.

Não muito depois do lançamento do LP, a banda encerrou as atividades, por conta da situação que ia ficando cada vez mais complicada para a banda, que passou a ter cada vez mais problemas com as autoridades, na medida que após o lançamento do seu primeiro disco, sua popularidade também ia aumentando. Passaram a ter problemas com o controle do governo sobre rádios e leis de distribuição restritas para seus discos. Eram um péssimo exemplo a ser seguido por outros grupos e um perigo em potencial contra a ordem racista e autoritária da época. A situação acabou ficando insustentável e a banda acabou, deixando um legado e muitas portas abertas não só para o punk, mas como para praticamente todo o movimento cultural e artístico do país.



Baixe aqui o primeiro e incrível disco do National Wake e prove a si mesmo que existe punk além dos EUA e da Inglaterra.

Leave a Reply