World Damnation - três faces do metal extremo gaúcho


Recentemente me mandaram o three way split (para os que não sabem, é um album no qual o repertório é dividido por mais de uma banda, não confunda com coletânea). O split conta com três bandas gaúchas: Impetus Malignum, Natural Chaos e Human Plague. Hoje farei um rápido comentário desses grupos e seus respectivos setlists no disco, desfrutem:

NATURAL CHAOS


Formado em 2007, a banda de Porto Alegre conta com quatro membros: Sidney "Sapão" Benites no baixo e vocais, Carlos "Indulgence" e Anderson "Gt" nas guitarras e Paulo Peixoto na bateria. O quarteto faz uma mescla de death/thrash bem velha escola, na linha de nomes como Morbid Angel, Sepultura e Slayer. Detalhe que o grupo gravou todas as músicas num home studio próprio, com uma produção bem interessante e que remete bem ao metal extremo old school.

No split, já abrem com a canção Carnage, com blast beats e palhetadas alternadas acompanhando os guturais gravíssimos de Sidney, foi impossível não se lembrar de Incantation escutando esse som. Em seguida chega Sacrifice Of Consciousness, que já começa com um riff bem memorável e skank beats, perfeito para iniciar um mosh ou circle pit. Pra encerrar sua participação no split, a faixa Chaos é facilmente é mais rápida e agressiva das três, com bastante influência do Sepultura velha escola e Massacre.


Em comparação ao que é visto na cena gaúcha, o Natural Chaos sem dúvida tem um apelo forte pro Death Metal Old School. As três faixas tem uma média de 5 a 6 minutos, mas as mudanças de tempo, peso e riffs pegajosos deixam o ouvinte interessado. Com certeza um contraste legal, pois quem conhece a cena por aqui nota que o Death Metal está bem cheio de bandas técnicas e velozes que buscam ser o novo Krisiun, logo bandas como essa que usam de tempos mais lentos de vez em quando são sempre bem vindas.


HUMAN PLAGUE


Formado em 2011, o grupo de Santa Maria é a banda mais "nova" que consta no split. O álbum abre com Below The Nothingness, com um riff mais cadenciado e bumbos duplos pesados, nota-se que eles têm mais influência nas bandas de death da cena européia (essa canção no caso me lembrou bastante Hail Of Bullets). Em seguida Silent War continua com uma linha um pouco mais melódica e o pedal duplo ataca novamente, dessa vez se nota uma forte veia de death metal sueco na linha do Unleashed, sem falar do belíssimo solo que acompanha esse som. 

Por último, entra a faixa Hate Celebration, que inicia com sirenes, teclados e o som de marchas e metralhadoras, que dão entrada ao som mais pesado e agressivo da parte deles nesse split. Pura bateção de cabeça e a faixa se encerra com blast beat, pedais duplos e mais velocidade, o que contrasta com o setlist que apresentavam, uma bela surpresa.


No fim, o Human Plague apresenta um Death Metal mais na linha das bandas européias dos anos 90/2000, a produção é bem limpa e clara, músicas bem cadenciadas e lentas. Dou um destaque pra faixa Silent War e seu solo realmente sensacional!

IMPETUS MALIGNUM


Sem dúvida a banda mais experiente nesse split, o grupo de Porto Alegre já tem 2 álbuns e bastante splits no currículo. Tocando um black metal na linha das bandas da segunda onda como Marduk e Gorgoroth, eles são responsáveis pela parte mais caótica e massacrante de ouvidos nesse split. Já iniciando o massacre com Slave Of Prophecy, atacando o ouvinte de surpresa com blast beats e palhetadas alternadas invocando melodias sombrias. 

Em seguida entra Storms Of Fire, com uma pegada bem war metal no estilo Goatpenis e Impaled Nazarene. O assalto continua com Death Ride, com um refrão pegajoso pra caralho, logo o setlist se encerra com Vatican Judgement, com uma produção mais lo-fi e arquetípica do gênero, porém os riffs e solo nessa faixa de encerramento são ótimos, também é a música  mais variada do repertório deles.


Impetus Malignum apresenta o repertório black metal pós 90's que interessa aos fãs de grupos como Marduk, Gorgoroth, Endstille, Impaled Nazarene e afins. Única reclamação que eu teria é que se nota que as quatro canções foram gravadas de formas diferentes, porém mesmo com as mudanças notáveis de produção, isso não desvaloriza o peso das músicas. Meu destaque fica pra faixa Vatican Judgement.

Bem, esse foi o three way World Damnation, representa três facetas diferenciadas do metal extremo gaúcho. Todos os grupos tem seus diferenciais aqui na cena local, o split é recomendadíssimo para os fãs dos respectivos gêneros. Vocês podem adquirir sua cópia nos distros que o lançaram: Petrol Music e Rock Animal.

O Ruído Sinestésico do Oxbow

                                     

O Oxbow foi formado na Califórnia no final da década de 80 e é um dos combos mais atípicos e extraordinários já surgidos. Liderado pelo vocalista negro, praticante de luta amadora e também escritor Eugene Robinson, conseguiram a partir da herança de bandas barulhentas como Big Black e Birthday Party criar uma sonoridade bastante particular.  Sua música muito visual e a versatilidade da voz de Eugene, dão a sensação de estar  dentro de um filme ou jogo de realidade virtual.  Poucos conseguem abordar musicalmente sentimentos conflitivos  de forma tão talentosa quanto o Oxbow: ataques de fúria desesperada alternam-se com atmosferas melancólicas, sinistras e sexy com uma naturalidade que impressiona. É música para pessoas fortes, já que não pegam leve em nenhum momento com o ouvinte. O próprio nome da banda, que em inglês significa “jugo” ajuda a  dimensionar essa proposta.
 
                                

Estrearam em disco em 1989 com “Fuckfest”, em que as letras foram retiradas de um bilhete de suicídio escrito por Eugene. O disco, que começa dando uma falsa impressão de ser um Bad Brains fase Quickness (a primeira música, "Curse") mostra o que seriam os álbuns seguintes: forte influência de jazz, tensão, punch brutal e transtorno bipolar. Dizer que Eugene é um Henry Rollins negro é justo. O gosto pela maromba, spoken words e a necessidade de provocar seu público são características de ambos os vocalistas (Eugene, tira as roupas durante as apresentações, terminando por ficar só de cueca; e não poucas vezes já saiu na porrada com seu público). Acrescento dizendo que o Oxbow é tudo o que a Rollins Band quis ser musicalmente, mas nunca conseguiu. Sorry, Mr. Rollins.
 
                                  

“King of the jews”, o próximo lançamento tem na capa uma foto do cantor e ator Sammy Davis Jr. Sammy, judeu negro que teve uma vida no geral bastante trágica e figura controversa (dentre as muitas curiosidades, era membro da Igreja de Satã) representa bem o espírito do Oxbow.
 
O "Rei dos Judeus" 
Mais quatro álbuns se seguiram: “Let me be the woman” (título sugestivo!), “Serenade in red”, “An evil heat” e “The narcotic Story”. Todos peças magistrais e que valem tudo serem ouvidos. Trabalhando em cima de temas ligados quase sempre ao amor que sempre vai embora ou mesmo que nunca aparece, o som  é faca na carne como poucas vezes foi feito. Participações especiais de gente como Lydia Lunch e Marianne Faithfull dão uma pista do nível de qualidade do grupo.
 
                              

                              

Falando de gente famosa, Eugene Robinson participou do projeto Black Face, com o ex-baixista do Black Flag  Chuck Dukowski.

O Oxbow promete disco novo ainda para 2014 e já tem até nome “The Thin Black Duke”, uma referência ao personagem, “Thin White Duke” do David Bowie. Podemos esperar por mais cinco dedos no meio do cara de pura categoria e brilhantismo.
 
                                   

Punk? Pós-punk? Psicódelico? Garage? Rakta!


Dentro de qualquer contexto, existem bandas que são únicas, extremamente criativas e muito difíceis de rotular, e dentro do underground nacional atual, o Rakta com certeza é uma dessas bandas inrotuláveis. Alguns até tentam classificar o som das garotas, que começaram suas atividades em 2012. Uns dizem que é pós-punk, outros dizem que é garage rock, uns dizem que é psicodelia, e eu digo que é melhor parar com essa putaria de sair rotulando e curtir o som, já que o som que essas mulheres fazem é extremamente único e diferente de quase tudo que eu já ouvi vindo do nosso Brasil varonil.



Falando um pouco da minha experiência pessoal com o som, conheci Rakta no início desse ano, quando vieram tocar aqui em Porto Alegre, lá pelo final de janeiro ou início de fevereiro, não lembro bem. Antes da banda anunciar os shows aqui, eu sequer tinha conhecimento de sua existência (o que na real é até bem comum comigo, geralmente conheço as bandas pouco antes de virem tocar aqui), tinha ouvido uns sons no bandcamp e achado muito legal, mas não ouvi com a atenção merecida. Isso foi acontecer lá, no momento do show, e caralho... Logo nos primeiros acordes, transcendi. Ao vivo a coisa é inexplicável. É um catarse, energia transcendental pura, um ritual primitivo e selvagem envolvendo experiências únicas. O cara fica imerso naquilo mesmo, quando menos percebe já está dançando, se contorcendo no chão, ou no caso dos mais tímidos, batendo o pézinho. Quem tiver a oportunidade de ver essas garotas em ação, veja! Eu, particularmente, não vejo a hora de que elas voltem pra cá logo pra curtir mais uma vez essa experiência. Desde aquela noite de calor insuportável em Porto Alegre, virei fã. E só não postei o som delas aqui antes por preguiça e vadiagem. Conserto agora meu erro proporcionado pela procrastinação.

O som, como já falei, é inrotulável. A influência pós-punk é latente, mas a banda não se resume a um clone de Joy Division (que foi o que se convencionou a ser chamado de "pós-punk" no Brasil). O som das garotas, muito pelo contrário, é extremamente original e não se parece com nada que eu tenha ouvido antes. O som em si é marcado por linhas de baixo e bateria bem simples, primitivas até, muito reverb, fuzz, ruídos e microfonias no talo, além do uso de teclados, que dão uma atmosfera ainda mais viajante e transcendental ao som. Em outras palavras: sensacional. Não há como ficar indiferente ao Rakta.


A banda, até agora, tem um LP e um single 7'' lançado, que podem ser ouvidos gratuitamente em seu bandcamp. Além disso, parece que a banda está abalando em tudo que é lugar que toca, e andaram fazendo uma tour até pelos States. Fico extremamente feliz por elas. Rakta merece todo o reconhecimento possível dentro do meio underground e tem tudo pra ser um "cult classic" em tempos futuros. Ouça aqui e tire suas conclusões.