Kylesa - Quando a fúria punk encontra a lisergia e o Black Sabbath


Mais uma vez, nosso camarada Homero nos envia mais material colaborativo da melhor qualidade. Dessa vez, ele nos concedeu uma entrevista exclusiva com Laura Pleasants, do Kylesa, na primeira entrevista em nome da banda para o Brasil!

Imerso em um cadeirão de influências encapetadas, o Kylesa é uma das gratas surpresas do rock nervoso desse novo século. Misturando a urgência do crust/punk, a angústia do sludge/doom e a lisergia do psicodelismo somados ao peso do heavy metal e do stoner à la Black Sabbath, o quinteto norte-americano de Savannah, estado da Georgia, desenvolveu uma musicalidade viajandona para Timothy Leary nenhum botar defeito. Essa amálgama sonora proposital é, inclusive, a grande virtude da banda. Sem se prender a rótulos, o Kylesa garante ao ouvinte uma jornada sem culpa pelo amplo universo do rock’n’roll. E a ousadia não para por aí. Além de estreitar as fronteiras entre estilos distintos, o conjunto aposta em uma formação pouco usual, que conta com duas baterias e três vozes.

O nome é inspirado na expressão budista ‘kilesa mara’, que seria, numa definição bem simples, algo como estados mentais oscilantes e ilusórios que podem ir da ansiedade à depressão. Algo que denota bem a proposta musical do grupo. Surgido em 2001, o Kylesa passou por perrengues, mas soube lidar com as adversidades. Entre a morte de um integrante e trocas de formação, o grupo moldou sua identidade sem puritanismos e ganhou respaldo mundo afora. Logo no início da carreira, o baixista e fundador Brian Duke morreu de ataque epilético enquanto o primeiro disco – autointitulado e lançado em 2002 – estava sendo feito. Seguiram-se alguns EPs e splits com parceiros de caminhada até o lançamento do segundo álbum, "To Walk a Middle Course" (2005). Em seguida, Brandon Baltzley, então responsável pelas baquetas, deixou o posto e foi substituído por dois bateristas. A partir daí, além de shows mais intensos, a banda colocou na praça discos mais arrebatadores: "Time Will Fuse Its Worth" (2006), "Static Tensions" (2009), "Spiral Shadows" (2010) e a recente compilação "From the Vaults Vol. 1" (2012). Em 2009, o Kylesa ainda dividiu um registro com os crusts suecos do Victims.

Formada atualmente por Laura Pleasants (guitarra e voz), Phillip Cope (guitarra e voz), Carl McGinley (bateria), Eric Hernandez (baixo e voz) e Tyler Newberry (bateria), a banda deve lançar em maio seu sexto disco de inéditas, batizado de "Ultraviolet". Conforme informações divulgadas nos canais oficiais do Kylesa, o disco será mais "frio e escuro" do que o anterior, com faixas que abordam múltiplos temas da perda. A recém-liberada canção "Unspoken" é um bom exemplo do que vem por aí.



Como quem não quer nada tentei uma entrevista com a Laura via Facebbok.  Muito "pleasant" (simpática), ela topou responder de boa.  Entre os assuntos abordados estão o surgimento do Kylesa, influências, mulheres na música e liberdade criativa. Segundo a moça, esta é a primeira entrevista que ela responde em nome do Kylesa para a imprensa brasileira. Ouié!

Você teve alguma banda antes do Kylesa? Caso sim, quais foram esses grupos e que tipo de som tocavam?

Laura Pleasants – Sim, eu estive em algumas bandas de pequeno porte antes do Kylesa. The Flys foi minha primeira, e a gente tocava uma mistura de surf rock, punk e garage rock. Depois, eu passei por um grupo chamado Mugshots, que era mais street punk e hardcore. Ainda passei por um punhado de outras bandas, mas nada muito sério. Eu estava na faculdade e esse era meu foco principal naquele tempo.

Como o Kylesa teve início e qual era a ideia musical quando a banda começou?

Laura Pleasants – O Kylesa começou quando a banda anterior do Phillip Cope (vocal e guitarra do Kylesa), chamada Damad, dividiu-se. Eu era amiga dele e do Brian Duke (ex-baixista e vocalista do Kylesa), e eles queriam começar algo novo. Então, me convidaram para fazer parte. Phillip e eu tocamos juntos algumas vezes e ele sabia que eu estava procurando por algo sério. Então, juntamos forças e começamos o Kylesa. Musicalmente, queríamos manter a coisa pesada, mas não queríamos nos limitar a gêneros ou influências em comum. A partir desse começo, fizemos um pacto que permitiria levarmos a banda em qualquer direção que a gente quisesse. Queríamos desafiar o cenário da música pesada a não produzir sons que caíssem na mesmice. Era pra ser um projeto de arte em andamento, que nos desafiaria e nos manteria criativamente ativos.


Quando você tornou-se musicista? Teve envolvimento com o underground?

Laura Pleasants – Eu fui pegar a guitarra um pouco tarde. Eu finalmente consegui uma quando tinha 16 anos. Eu tive algumas aulas na ensino médio e, logo que mudei para Savannah para fazer faculdade, comecei a tocar mais seriamente. Eu não tinha ideia de que seria um musicista, mas estou feliz com o caminho que escolhi.

Existem muitas mulheres tocando guitarra em bandas de rock, mas parece que a maioria delas ainda ocupa os postos de vocalista ou baixista. Por que você escolheu a guitarra?

Laura Pleasants
– Eu escolhi a guitarra porque era o instrumento que soava mais legal para meus ouvidos. Além disso, como a maioria das mulheres que via em bandas naquele tempo tocavam baixo ou eram vocalistas, a guitarra parecia ainda mais atraente. Dito isso, eu vejo mais e mais mulheres tocando guitarra a cada dia. Há mais mulheres agora na cena roqueira do que posso me lembrar no passado. Não existem tantas garotas no cenário rock/metal porque esse estilo consiste, principalmente, de um público masculino. Porém, vejo isso mudar mais e mais. E isso é ótimo! Eu tento conscientemente apoiar bandas que têm integrantes do sexo feminino.



Atualmente, a mulherada está conquistando mais espaço no mundo do rock, como você mesma disse. Porém, os homens ainda são maioria. Como você lida com isso? Você já foi discriminada ou algo assim?

Laura Pleasants
– Sempre senti que tenho mais a provar como mulher. Nunca quis ser um símbolo, "a mina da banda com grandes peitos, um monte de maquiagem e roupas seminuas" que chama a atenção dos homens. Não preciso dessa merda. De várias maneiras eu sou como qualquer outro "cara" numa banda, exceto pelo fato de ter uma perspectiva feminina. Acho que ter o viés masculino e o feminino faz as coisas mais interessantes. Não que isso seja melhor ou algo assim, apenas diferente.

O Kylesa manda uma fudida e doidona mistura entre rock psicodélico, punk e sludge. É uma espécie de cruza entre Black Sabbath e Black Flag com apadrinhamento de grupos como Neurosis. De onde vieram essas influências tão diversificadas?

Laura Pleasants – haha… Esse é um resumo muito bom do nosso som! Acho que nunca quisemos soar como um combo de certas bandas em particular – nós certamente nunca nos limitamos a isso. Creio que muito disso é natural. Black Sabbath e Black Flag foram extremamente importantes para mim no ensino médio e realmente deixaram sua marca no meu jeito de tocar. Tanto eu quanto Phillip temos um grande amor pelo punk rock antigo. Ele cresceu sendo punk e skatista. Ele e Brian foram fortemente influenciados por Neurosis. Phillip e eu adoramos qualquer coisa estranha, esquisita e única. Rock psicodélico e indie rock também sempre estão misturados em nosso som. Apenas não escondemos essas influências tanto quanto costumávamos.


Quando o Kylesa compõe uma música pensa: "queremos que essa seja mais hardcore" ou "esta será mais metal", por exemplo?  Ou vocês simplesmente criam uma canção e ele soa naturalmente como tem de soar?

Laura Pleasants – A gente quase sempre cria nossas músicas organicamente. Talvez tenhamos uma direção geral, mas, no final, as músicas se escrevem por si.

Os primeiros discos soam mais agressivos e com uma pegada mais punk. A partir do "Static Tensions" (2009), a banda pareceu tomar um direcionamento mais experimental. Você concorda com essa impressão?

Laura Pleasants – Sim, concordo! Temos evoluído, mas de uma maneira natural. Além disso, a produção ficou melhor com o passar do tempo.

O Kylesa lançou splits com diferentes tipos de banda, como Victims, Cream Abdul Babar e Memento Mori. Qual o motivo dessas parcerias com artistas de diferentes gêneros e países?

Laura Pleasants – Amizade tem mais a ver com isso do que qualquer outra coisa.

Desde o disco "Time Will Fuse Its Worth" (2006) o Kylesa tem dois bateristas. Por quê? Como isso afeta o processo de composição, as gravações e os shows?

Laura Pleasants – Acabamos de completar nosso quarto disco com dois bateristas. Tem sido um processo de aprendizagem, com certeza. A experiência de estúdio é diferente da ao vivo. No palco, é mais pesado e prático. Escrevemos as músicas pensando nos dois bateristas, mas isso não dita o processo de criação.



No site do Kylesa (kylesa.com) é possível comprar alguns pacotes interessantes de produtos. Um deles contém, segundo descrição da página “todas as ferramentas necessárias para imergir a si mesmo num groove psicodélico e pesado”. Isso inclui porta-incenso, luz negra, pôster e esmurrugador (se não sabe o que é, peça ajuda ao google). Você é a favor da descriminalização da maconha?

Laura Pleasants
– Eu realmente acredito que a maconha deveria ser legalizada. O álcool faz estragos maiores ao público em geral do que a maconha jamais fez.

Quais são suas grandes influências? Quais artistas foram essenciais para que você quisesse trabalhar com música?

Laura Pleasants – Slash foi um. Ele era um grande roqueiro e eu tinha uma queda por ele. Tony Iommi foi o maior de todos. Ian MacKeye, Henry Rollins…

O último full-length do Kylesa, "Spiral Shadow", saiu em 2010. Em 2012 a banda lançou "From the Vaults", que traz composições novas, raridades e algumas versões diferentes de faixas que já foram lançadas em registros anteriores. Quando poderemos ouvir um álbum só de inéditas do Kylesa?

Laura Pleasants – Terminamos de gravar um disco novo. Deve sair em maio pela gravadora Season of Mist.

Quais os planos da banda para 2013?

Laura Pleasants – Assim que o novo disco sair, entraremos em turnê.

E o Brasil, quando teremos a chance de ver o Kylesa ao vivo?

Laura Pleasants – Queremos muito ir. Tudo depende de encontrarmos o promotor certo para nos levar. Então, iremos até aí, tocaremos bem alto e levaremos o público em uma viagem. (interessados em trazer o Kylesa para o Brasil podem fazer contato com o empresário da banda pelo e-mail: jarvis.erik@gmail.com)



Para complementar o post, deixo aqui o download dos discos "Time Will Fuse Its Worth" de 2006 e "Static Tensions" de 2009.

Subhumans - Mais punk canadense


Poucos dias atrás fiz um post do D.O.A. aqui no blog, e pra dar uma espécie de "sequência" para o post, hoje vou falar do Subhumans, já que é praticamente impossível falar da história de uma sem ao menos citar a existência da outra, é algo tipo Bonnie & Clyde ou Goleiro Bruno e Macarrão, saca? As duas estão interligadas, foram pioneiras no Canadá e extremamente importantes para o cenário punk de lá.

Joey Shithead (do D.O.A.) e Gerry Useless (que tocou baixo no Subhumans) são amigos de infância e juntos se iniciaram no mundo do rock 'n' roll e da política. Nos anos 70, eles e outros amigos moraram em comunidades no campo, em Cherryville, nas montanhas canadenses, estilão hippie. A diferença é que não eram da turma da paz e do amor (apesar de curtirem o cachimbo da paz) e acabaram causando as mais diversas confusões por lá. Porém o mais importante para essa história é que lá eles tiveram diversas bandas, que não vingaram, mas mostraram para os amigos que o que eles queria mesmo era fazer um som. Após diversos problemas com a polícia e com os moradores da região, aliado ao inverno extremamente rigoroso de lá, decidiram voltar para Vancouver.

Em 1976, no retorno à Vancouver, os amigos começaram a ouvir grupos como os Ramones, Stooges, MC5 e decidiram entrar nessa praia também. Nessa, decidiram formar o The Skulls, que contava com membros do D.O.A. e do Subhumans, porém sem Gerry, que não estava muito familiarizado com o tal de punk rock, novidade na época. O The Skulls foi a primeira banda punk do Canadá e contava com Joey Shithead, Brian Goble, Ken Dimwit e Kent Montgomery. O The Skulls teve vida curta porém lançou sementes, como sabemos Joey fundou o D.O.A. e os demais membros (com excessão de Kent) formaram o Subhumans, e mais tarde, já nos anos 80, Brian e Dimwit entraram para o D.O.A, após o fim do Subhumans.

Porém, voltando um pouco atrás, em 1977, o Skulls tinha se mudado para Toronto, e Gerry também estava por lá e já tinha se familiarizado com o punk e também queria entrar nessa onda. Tinha até feito duas músicas, "Fuck You" e "Slave To My Dick" (as duas gravadas pelo Subhumans). Eles gostaram tanto das músicas que resolveram formar uma outra banda (sem acabar com o Skulls), o Wimpy and The Bloated Cows, com Gerry no baixo, Joey na bateria, Brian Wimpy no vocal e Simon na guitarra. Não durou muito, mas logo após o fim dessa empreitada e também do Skulls todos tomaram os seus caminhos e a história começa de verdade.


 
Depois da experiência em Toronto a gurizada volta para Vancouver e montaram suas respectivas bandas. Brian, Gerry, Dimwit e Mike Grahan montaram o Subhumans em 1978, e em pouco tempo já se tornaram uma das bandas preferidas do punks canadenses, junto do D.O.A, tanto pelo som, como pelas letras, de conteúdo político e intelegente. Em 1978 lançaram apenas um single, com as faixas "Death to the Sickoids" e "Oh Canadu". Pouco depois, Dimwit deixa a banda e em seu lugar entra Jim Imagawa. Com essa formação, em 1979 lançaram o EP auto-entitulado com as faixas "Fuck You", "Slave To My Dick", "Inquisition Day" e "Death Was Too Kind", um single com os sons "Firing Squad" e "No Productivity" e ainda um LP, o "Incorrect Toughts", um clássico. Com isso conseguiram uma tour pela costa oeste dos EUA ao lado de bandas como o Dead Kennedys, X, Avengers e Black Flag, o que deu à eles uma boa visibilidade e reconhecimento.
 

E quanto mais experiência ganhavam, mais politizados ficavam, e isso não se resumia a fazer punk rock, todos os membros da banda tinham fortes ligações com grupos políticos, anarquistas e ambientalistas. Porém o mais radical de todos sempre foi Gerry, que inclusive saiu do Subhumans no início de 1981 ao se envolver com um grupo de causas anarquistas e ambientalistas chamado Direct Action, que pregava ações diretas contra o sistema. Isso incluía sabotagem à industrias poluidoras e armamentistas, por exemplo. Era uma espécie de "guerrilha urbana" cujo o principal alvo era as grandes corporações e outras instituições ligadas a cultura de consumo capitalista. O grupo ficou conhecido como Squamish Five pela mídia, por terem sido capturados pela polícia em 1983 em Squamish, uma pequena cidade do interior canadense, após diversos atos quase terroristas, acreditando que apenas causando danos físicos e financeiros ao "inimigo" poderiam destruí-lo. Na realidade, também compartilho da mesma ideia, que só podem haver mudanças através de ação direta, e não através de reclamações em redes sociais sobre algo que muitos nem sabem do que se trata, porém isso não vem ao caso e a diferença é que eu não tenho culhões pra isso, mas admiro quem tem. De qualquer forma, o grupo causou vários atentados (sem causar vítimas), e dentre os mais conhecidos, a explosão de uma represa (ainda em construção) em Vancouver, que segundo os ambientalistas poderia causar grandes danos ao meio ambiente e cujo os prejuízos ultrapassaram os cinco milhões de dólares (!!!) e um atentado à bomba contra Litton, uma fábrica de mísses à serviço dos EUA. Além de Gerry, faziam parte do grupo Ann Hansen, Brent Taylor, Juliet Belmas e Doug Stewart. 

Hoje em dia todos estão livres e já cumpriram suas penas. Gerry foi condenado à 10 anos de prisão dos quais cumpriu 5. Retomando o post do D.O.A, em 1983, a banda lançou um EP beneficente em prol da liberdade dos guerrilheiros, chamado "The Right to Be Wild", inclusive falei um pouco sobre a história naquele post, mas aqui tratei de contar com maiores detalhes... Enfim, foda-se.

(Squamish Five)

Agora deixando um pouco a politicagem de lado e falando sobre música, o Subhumans não encerrou as atividades com a saída de Gerry e de Jim, que também abandonou o barco por conta de problemas pessoais. Em seus lugares, entraram o baixista Ron Allan e o batera Randy Bowman. Com a nova formação, a banda lançou o LP "No Wishes, No Prayers", tão bom quanto o primeiro. Porém o Subhumans chegou ao fim em 1982, antes mesmo de uma tour para promover o disco, assim que Brian Goble aceitou o convite para entrar no D.O.A, que já havia virado uma banda muito maior que o Subhumans e já fazia turnês longas por todo o continente norte americano e também pela Europa.



Porém em 1995 a banda retorna às atividades, com Gerry no baixo, Brian no vocal, Mike Graham na guitarra e Jon Card (ex-D.O.A.) na batera, inclusive estão até hoje em atividade e tem lançado novos discos, por sinal ótimos, apesar de um pouco afastados das raízes punks da banda e apostando num som mais rock 'n' roll, embora ainda completamente politizado. Quem tiver curiosidade de sacar os novos trampos dos caras, eles lançaram em 2006 o "New Dark Age Parade" e em 2010 "Same Thoughts Different Day", esse último na realidade, uma regravação de músicas antigas da banda.

Deixo aqui o primeiro disco da banda, "Incorrect Toughts", de 1979, uma verdadeira obra prima do punk rock canadense e mundial.

Change Your Life - Paulada powerviolence de Porto Alegre


Bom galera, o post de hoje é especial. Além de tratar sobre uma banda da nossa cidade que a gente gosta muito, essa é a primeira entrevista (de muitas) que fizemos (e vamos fazer) para o blog. A ideia de começar a fazer entrevistas pra esse chiqueiro virtual, abrigo de músicas ruins, veio após o camarada Homero nos enviar uma entrevista que ele fez com o From Ashes Rise (leia aqui) para postar aqui no blog, como material colaborativo, e achamos interessante ceder espaço para entrevistas aqui também. E a primeira banda que consegui pensar para entrevistar aqui pro blog foi a Change Your Life, não só por ser uma banda de amigos, mas também por ser uma das mais ativas no underground porto alegrense e que eu particularmente, curto muito, inclusive está entre as minhas bandas preferidas daqui atualmente. A banda foi formada em 2009 e manda um powerviolence/fastcore dos mais fudidos, mais que recomendado para qualquer um que curta barulheira, gritaria, loucura e desgraça. Conversamos com o Wender, vocalista da banda, e falamos um pouco sobre a sua história, influências, envolvimento com o underground da região e outras marotices. Confiram!

Como os integrantes se conheceram, e quando vocês tiveram a ideia de montar a banda?

Wender - Quem formou a banda foi o Guilherme (do fanzine Outono ou Nada e que já tocou na Out of Reason, Cü Sujo e atualmente toca na Ornitorrincos), isso em 2009, eu acho. Passamos por algumas mudanças, mas acho que mesmo com todas as trocas, todo mundo já se conhecia, nem que fosse de vista. Afinal, todo mundo acaba se encontrando alguma vez ou outra, por exemplo, o Jonas (baixista) tocava na Frënso, que tocou junto com a gente no nosso primeiro show, nunca tivemos tanto contato, mas daí uma vez quando tocamos com o Ratos de Porão em Canoas, ele tava lá vendo o show e daí conseguimos trocar uma ideia melhor e alguns meses depois, quando o Binho saiu, o cara entrou pra banda. Enfim, a ideia do Gui acho que era de reunir pessoas com gostos em comum e fazer um som rápido. Acho que a pilha de formar a banda veio porque na época o Gui tava saindo da Cü Sujo e não tava envolvido com nenhuma outra banda, lembro que recém tínhamos acabado de organizar uma turnê pela região de Porto Alegre com os nossos amigos da Resto de Feira, então estávamos naquela empolgação mesmo.

Cite as principais influências da Change Your Life:

Wender - Isso varia bastante, acho que esse negócio de influência pode ir desde algum livro, fanzine, filme, vivência e som, é claro. Falando em som, acho que nossas principais influências são Spazz, Apathetic Ronald Mcdonald, La Revancha, Catarro, Charles Bronson, Jay Adams, WxHxN?, Merda, Sugar Pie Koko, Napalm Death, Scholastic Deth, Dropdead, Electro Hippies, Lärm e por ai vaí... Afinal, o cara sempre acaba conhecendo algo novo ou resgatando alguma velharia, hehe.

 Do que tratam as letras da banda, no geral?

Wender - Sempre são temas mais cotidianos, por exemplo, temos letras que falam sobre o status social, religião, vegetarianismo, esse negócio de escola das ruas onde o cara aprende muito mais vivendo do que trancado em uma sala seguindo os mesmos padrões de cem anos atrás, temos até um conto adaptado do “livro dos abraços” do Galeano e que acabou virando uma letra. Enfim, são alguns dos nossos sentimentos, frustrações e opiniões expressadas ali.


Desde o início a Change Your Life se mostrou uma banda bastante ativa, com uma boa média de shows e inclusive tocando com nomes importantes da cena punk/hardcore nacional, como o Cólera, Lobotomia, Ratos de Porão e Armagedom, além disso alguns membros da banda estão ligados ao underground de outras maneiras, Wender, tu organiza shows, o Insekto faz quadrinhos... Fale um pouco sobre isso:

Wender - Independente de ser ligado ao underground, isso é a nossa vida. É aquilo que gostamos realmente de fazer e não é só aquilo que a gente faz quando tem tempo, tá de folga ou isso ou aquilo. Nossa vida é underground.

Eu, Wender, conheci o Insekto através da produção de filmes independentes, vi que ele tinha feito um curta e na época também era envolvido com isso, dai depois fiquei sabendo que ele tocava na Facão 3 Listras e tempos depois estávamos tocando juntos. O Insekto faz filmes, fanzines e quadrinhos. Aqui dá pra sacar alguns trabalhos dele: www.insektron.blogspot.com

O Jonas toca e já tocou em outras bandas, como: Verão, Tamborellos, Frënso, Living Deads. Além disso, ele mantém um projeto solo e experimental muito massa que é o dpsmkr (dpsmkr.bandcamp.com).

O Gêison, vulgo Anão, participa do Centro Cultural Marcelo Breunig e lá os caras fazem várias coisas além dos shows, sempre rola debate, palestra, oficinas, sessões de cinema, entre outras atividades. É um legitimo Centro Cultural.

Eu, Wender, edito alguns zines, organizo alguns shows e essas coisas, atualmente tô colaborando na produção de alguns filmes com a Fantoche Filmes, produtora independente de Canoas, do Ricardo Ghiorzi.

A banda esteve parada um certo tempo, qual foi o motivo dessa pausa, e o que motivou vocês voltarem às atividades?

Wender - Acho que encheu o saco e dai precisamos tirar um tempo só. O Anão era o baterista oficial da banda, mas ele ficou um tempo com alguns problemas pessoais e dai o Gui quebrou um galho para alguns shows, e ele só topou quebrar o galho desde que gravássemos algo, então gravamos alguns sons com o Guilherme na bateria e dai tiramos algumas férias. Até que no ano passado um amigo nosso tava voltando pra Argentina e daí resolveu fazer uma festa de despedida e nos convidou pra tocar, pilhou muito a gente e tal, no fim não conseguimos ensaiar a tempo, mas quando ensaiamos percebemos que a pilha tinha voltado, dai a coisa voltou ao natural, saca? Começamos a fazer novos planos, compor sons novos e daí aquela pilha se renovou.


Quando a banda voltou, na metade do ano passado, vocês lançaram alguns singles para a molecada curtir, de algumas gravações que já estavam engavetadas fazia um tempo. Vocês pretendem lançar esse material todo na íntegra? Quais são os planos da banda para esse ano?

Wender - Esses sons foram daquele registro que fizemos com o Guilherme. Soltamos algumas coisas, meio que pra marcar essa volta e também pra dar um giro no material, até porque só tínhamos uma demo – que na verdade é um registro de um ensaio, então tá tri tosco. Esses sons vão sair em um split com a banda Pesticida lá de Belém e também alguns outros vão sair em uma coletânea de um zine também lá de Belém e quem organiza também é esse mesmo pessoal da Pesticida. Nesse ano, vamos participar de um tributo aos 30 anos do lançamento do SUB tocando Psykóze (nota do editor: o show/tributo é dia 3 de março, para quem é de POA ou região e ficou curioso, veja aqui mais informações e compareça!). Além disso, pretendemos entrar em estúdio novamente e lançar alguma coisa ainda esse ano. Tá tudo nos planos, hehehe.

Fale sobre alguns momentos que você julga que foram importantes para a Change Your Life:

Wender - Cara, tô pra dizer que teve vários momentos importantes. Acho que sempre estivemos cercados de pessoas legais, tipo, fiz amigos no estúdio onde ensaiamos, fiz amigos tocando em shows, fiz amigos divulgando a banda e por aí vai... Conheci muita gente através da banda, por exemplo, o Tibiu, e ele foi um cara que nos deu uma puta força. Enfim, acho que isso é o mais massa, quando o pretexto da banda se torna uma extensão pra desencadear uma série de outras coisas. Tocamos com muitas bandas e pessoas legais, com bandas que admirávamos e admiramos ainda. O show com o Ratos de Porão foi muito foda, lembro que quando acabou o show teve um amigo meu que falou que o Boka tinha curtido o nosso show, daí fui falar com o Boka e o bitio fez elogios mesmo pra banda, surreal. Porra, o batera de uma banda que tu admira fala que curtiu tua banda, pode parecer bobo, mas sei lá, é isso que vale a vida de uma banda, saca? Essa é a tal quebra de barreiras que o underground te proporciona, e esses são sempre bons momentos. Teve o show com o Cólera também e que infelizmente foi o último show deles no sul do país. Teve o show no Paranoise Gig em Estrela que foi animal, fomos os ultimos a tocar, mas o público de lá é incrível e este foi também o primeiro show com o Jonas na banda, e tá aí outro momento bem importante pra banda que foi a entrada do Jonas no grupo. Enfim, é foda de falar de um momento, até me empolguei bastante aqui tentando lembrar, hehehe, mas bom momento acho que é responder essa entrevista, receber um email de alguém falando da tua banda ou algo assim, essas coisas, manja? Uma vez gritaram no meio do nosso show que quando entraram no lugar pensaram que quem tava tocando era a Entre Rejas. Hehehe. Teve até show em que cantaram uns sons junto com a gente, isso sim é surreal e também muito gratificante.


Agora a velha pergunta cretina de sempre, o que vocês acham da cena local? Quais são as bandas locais que você mais gostam?

Wender - Ah, cara. Nós não apoiamos a cena, tá ligado?

Nesse meio “independente” acabamos dependendo e muito dos nossos amigos, conhecidos e por aí vai. Tipo, uma cena é formada pelo cara que produz o show, pelo cara que tem um selo e lança as bandas, pelo cara que trabalha na loja de disco, pelo cara que faz camisetas, pelo cara que só vai no show e paga o ingresso, também tem o cara que tem um blog, tem um amigo que tira fotos, tem outro que filma e faz clipes, daí tem um amigo no interior que faz os rolês lá e isso possibilita trazer bandas de fora pra um giro no estado, tem um conhecido teu que trabalha no jornal, tem outro teu amigo que é chefe... E por aí segue.  E na real, isso é o mais foda de tudo, tu conseguir mover e fazer barulho sem edital e com poucos investimentos, aliás, com muitos investimentos, afinal investimos nosso tempo, energia e amor pra fazer a roda girar e não deixar essa chama se apagar. Na minha opinião, assim que se forma uma cena. E tô pra dizer que a gente tem tentado bastante fazer tudo certo. Enfim, acho que a nossa cena local é boa, podia ser melhor é claro, mas também podias erpior, né?

Sobre as bandas, das que estão ativas, curto bastante: Ornitorrincos, I.C.H, CxFxCx, Mar de Marte, Sistema de Mentiras, RED, Living in Hell, Campbell Trio, Medialunas, Hangovers, Dévil Évil, Badhoneys, Entre Rejas, Diatribe, TSF, Shade of Mankind, Viruskorrosivus, Lapso de Insanidade, Raise Your Head, Imorale, Para-raio da desgraça, No Masters, Chute no Rim, Terror66, The Tape Disaster, Os Tortos... Ah, tem muita banda boa mesmo aqui e todas elas me motivariam a sair de casa pra curtir um show.

Recomende uma sonzeira esperta pra gurizada que acessa o blog:

Wender - Aproveitem e procurem pelas bandas que citamos acima, vale a pena!

Faça suas considerações finais: agradecimentos, xingamentos, dê um recado para os leitores do blog, mande os tomar nas pregas, deixe contato para shows... Fala o que quiser, bitcho!

Wender - Pow, valeu pelo espaço, bitio! O blog de vocês é demais e o Maurício sabe como eu sou fã e sempre fico indo atrás das postagens de vocês. Muito massa agora pra gente poder estar em uma postagem.

Contatos da banda:
E-mail: changeyourlifeofficial@gmail.com
Facebook: Change Your Life

E é claro, para ouvir o som dos meliantes, aí está o bandcamp do conjunto musical cristão Mude Sua Vida: changeyourlife.bandcamp.com


(Change Your Life ao vivo no Entrebar, dia 04/11/12. Filmagem por Alequis)

The Testors - Punk rock lo-fi, sujo e destrutivo


Sonny Vincent é um dos músicos mais ativos da primeira era punk. Está envolvido com essa arte destrutiva do punk rock desde 1975, quando a coisa estava tomando forma, e até hoje o cara continua mandando brasa, inclusive fazendo shows por aí, já teve vários projetos (o mais recente deles, Sonny Vincent and the Bad Reactions, que lançou um 7'' no ano passado), lançou muito material em carreira solo, e já gravou com gente como Wayne Kramer (MC5), Lou Reed, John Cale (Velvet Underground), Greg Ginn (Black Flag), Brian James (The Damned), Scott Asheton (The Stooges), Cheetah Chrome (Dead Boys) e Thurston Moore (Sonic Youth), só pra citar alguns. A obra do cara é bastante interessante, e seu legado é grande e talvez até invejável, mas Sonny Vincent jamais passou do status de lenda "cult" entre os fãs de punk rock e sua história e seu legado não são muito comentados, certamente pelo fato de o cara ser muito louco e carregar consigo diversas tretas, porém, mesmo assim, creio que a obra do cara merece ser reconhecida e respeitada.

O Testors foi a primeira banda do nosso herói, formada em 1975, em Nova York, quando o punk rock começava a tomar forma e na época, não passava de algo local, e talvez nem tinha a pretensão de se tornar algo gigante, como acabou se tornando. Além de Sonny, que era o guitarrista e vocalista do Testors, completavam a banda Gene Sinigalliano nas guitarras e Gregory R nas bateras. Isso mesmo, no início a banda não contava com baixista. Os primeiros shows da banda foram no CBGB's e no Max's Kansas City com as bandas mais broncas e doidonas daquela cena, como o Teenage Jesus and the Jerks, The Cramps, Suicide e os Dead Boys.



Em 1977, a banda já conseguia concertos como a banda principal da noite, porém nesse ano Sonny ficou um tempo preso por vandalismo e porte de drogas, o que levou a banda a ficar um tempo parada. Além disso, os outros membros da banda também não eram santos: um ano depois, em 1978, Gregory teve que sair da banda pois estava envolvido em diversas tretas violentas e teve que deixar a cidade (!!!). Em seu lugar entra Jeff Couganhaur, que era de Cleaveland, e decidiram também adicionar um baixista, Ron Pieniak, que era um pintor surrealista amigo de Sonny, que inclusive dividiam o mesmo loft em Nova York. Porém Ron não ficou muito tempo na banda pois decidiu ir para a Califórnia já em 1979 e foi substituído por Kenneth Brighton. Em 1979 também rolou uma tour pelos EUA junto com os Dead Boys, que acabou sendo bastante caótica, regada à muitas drogas e as mais diversas tretas com a polícia.



Em 1980, o Testors lançou seu primeiro compacto, com as músicas "Time Is Mine" e "Togheter", e continuaram tocando o terror por aí, inclusive chegaram a dividir o palco com o lendário Iggy Pop. As coisas estavam indo muito bem e a banda tinha tudo pra dar certo, porém Sonny, cada vez mais insano, arrumava treta atrás de treta. No ápice de sua loucura, em um show dos Testors, Sonny simplesmente ATEOU FOGO no palco do CBGB's, assim, no maior estilo Gurizada Fandangueira. O resultado foi que Sonny acabou sendo internado em um hospício para observação e tratamento, e o Testors encerrou suas atividades. Após voltar às ruas, Sonny montou o Sonny Vincent and the Extreme em 1982, mas aí ja é outra história...



Apesar das loucuras de Sonny terem impedido a banda de ir mais longe, o Testors estava à frente do seu tempo. O som deles era muito mais agressivo do que o de todas aquelas bandas da época, chegando a beirar o hardcore em alguns momentos, e com certeza foram uma banda crucial para a formação do punk rock, e uma das melhores da primeira era punk. Basta ouvir petardos como "Primitive", "MK Ultra" ou "Bad Attitude" (mais tarde, coverizada pelos noruegueses black metal do Darkthrone, quem quiser conferir a versão, deleite-se) para ver se tenho ou não razão. Embora o único lançamento da banda na época tenha sido o single 7'' de 1980 com "Time Is Mine" e "Togheter", mais tarde, Sonny tratou de lançar material póstumo da banda. Gravações lo-fi, apresentando canções sujas e agressivas, como o punk rock deve ser. Trago hoje para vocês a coletânea "Complete Recordings: 1976-1979", coletânea dupla lançada em 2003 pela Swami Records reunindo tudo que a banda gravou, inclusive alguns registros ao vivo. Deleite-se!

Download disco 1
Download disco 2

D.O.A. - A reserva moral do punk canadense


Formada no ano de 1978, em Vancouver, no Canadá, após o final do The Skulls (banda canadense seminal que também deu origem ao Subhumans, outra banda que trarei aqui no blog mais tarde) por Joey "Shithead" Keithley, o D.O.A. é um dos pioneiros do punk rock canadense, e talvez a maior reserva moral do estilo na terra dos alces e lenhadores. Com músicos acima da média, referências das mais variadas (que iam desde o rock 'n' roll dos anos 60 e 70 até o reggae e o ska, passando até mesmo pelo heavy metal) e uma postura política séria aliada a letras ácidas, irônicas, inteligentes e agressivas, o D.O.A. desde sempre foi uma das minhas bandas preferidas no universo punk/hardcore. Infelizmente, no Brasil a banda não é muito conhecida, mas ajudaram a construir um capítulo importante na história do punk e do hardcore mundial.

Falando um pouco sobre a história da banda, o D.O.A. foi formado por Joey "Shithead" Keithley (guitarrista e vocalista), após inúmeras experiências em outras bandas com seus amigos, que nunca vingaram, mas serviram para mostrar pra ele que o que ele queria mesmo era fazer um som e tocar o terror. A primeira formação da banda contava com Chuck Biscuits na bateria e Randy Archibald no baixo, e chegou a ter um vocalista, Harry Homo, que apesar de ser um bom frontman e agitasse bastante o público era um péssimo vocalista, e logo após o primeiro show da banda foi descartado.



Ainda em 1978 a banda fez vários shows em diversas casas de Vancouver, e começavam a ganhar fama no underground local. Com bastante material composto, a banda já estava pensando em gravar e é claro que não foram atrás de uma gravadora, resolveram lançar a bagaça sozinhos. Alugaram nove horas num estúdio fuleiro com uma bateria alugada completamente podre e um equipamento totalmente precário, e o resultado foram quatro absolutos petardos do punk rock canadense, que formaram o primeiro compacto do D.O.A, com "Disco Sucks", "Royal Police", "Nazi Training Camp" e "Woke Up Screaming". Assim nasceu também o selo Sudden Death Records, de Joey Keithley, que até hoje está em atividade e lançando os lançamentos não só do D.O.A. mas como de outras bandas canadenses. O primeiro compacto 7'' do D.O.A. foi limitado à 500 cópias que se esgotaram rapidamente.

A banda enviou algumas cópias para alguns zines e rádios na costa leste dos EUA e pronto, a merda estava feita. Com menos de um ano de existência a banda já se apresentava em solo estrangeiro, em Los Angeles, onde passaram um tempo a mais e iniciaram uma grande amizade com o pessoal daquela cena, especialmente com Jello Biafra, do Dead Kennedys. Inclusive, mais tarde, em 1989, Jello Biafra lançaria um disco com o D.O.A. como banda de apoio, o espetacular "Last Screams of the Missing Neighbours", porém isso é assunto pra outra hora.

No retorno à Vancouver a banda lançou mais um compacto, dessa vez com "The Prisoner" e "13", além de duas faixas ("I Hate You" e "Kill Kill This Is Pop") para a coletânea "Vancouver Complication" (uma equivalente canadense do "SUB" ou "Ataque Sonoro", essencial para aqueles que desejam se aprofundar no punk rock canadense).



Em 1979, mais uma tour pelos EUA, cheia das tretas, complicações e contratempos, porém que ajudou a promover bastante a banda, os levou a decidir que precisavam de uma "babá" para cuidar deles e administrar dos negócios da banda, aí entra Ken Lester, um ativista político malucasso cheio de ideias irreverentes, assim como os próprios membros da banda, o que acabou culminando numa parceria forte e bastante duradoura. Em 1979 também lançaram mais um compacto, com "World War III" e "Watcha You Gonna Do?".

Após finalizarem uma tour pelo Canadá e tocarem em algumas cidades dos EUA, e tendo inclusive abrindo um show do Clash em Vancouver, o D.O.A. foi convidado para um show em uma universidade de engenharia. Péssima ideia. Terminou em treta. Como já estavam enfrentando as mais diversas confusões, acabaram discutindo e Chuck e Randy chutaram o balde e mandaram Keithley pra puta que pariu.

Porém nosso herói Joey não desistiu, ainda mais porque a banda havia começado as gravações do primeiro LP, e reformulou completamente a banda, inclusive com um segundo guitarrista, Dave Greg. Deram seguimento às gravações e acabaram fazendo alguns shows que foram uma bosta completa, mas num desses shows, Chuck e Randy estavam na plateia, e após o show, trocaram uma ideia com Joey, se abraçaram e decidiram que todos deveriam voltar a ser amiguinhos e voltar com o D.O.A. original. Foi a vez de Joey mandar todos os outros membros do D.O.A. reformulado para a puta que pariu, com excessão de Dave Greg, que permaneceu na banda por sugestão de Ken Lester, que achava que o D.O.A. precisava de um segundo guitarrista. Retomaram as gravações do primeiro LP, tendo que regravar a porra toda e assim, em 1980 saiu "Something Better Change", o primeiro disco da banda e uma pérola do punk rock canadense e mundial.



No final de 1980, a banda começou a gravar seu segundo LP, o mais que clássico "Hardcore '81". Embora muitos pensem que o D.O.A. foi a primeira banda a adotar essa expressão, na realidade o título foi retirado de uma matéria de um zine punk de San Francisco que falava sobre bandas como o Dead Kennedys, Avengers, Black Flag, Circle Jerks e incluiu o D.O.A, mesmo sendo canadenses. Inclusive, muitas vezes o D.O.A. foi confundido com uma banda da costa oeste dos Estados Unidos, não só porque faziam várias tours por aqueles pagos, mas também porque o som se assemelhava muito com o daquelas bandas.

De qualquer forma, "Hardcore '81" é uma paulada na cabeça, um legítimo disco de hardcore. Apenas 14 músicas em 19 minutos, riffs rápidos, bateria furiosa, letras ácidas e um som completamente agressivo. Lindo, essa é a palavra certa para descrever esse petardo. O disco saiu em abril de 1981 e foi muito bem aceito pelos fãs, e inclusive até hoje é considerado o melhor da banda por muitos. Rendeu uma tour no Canadá e nos EUA e inclusive um show em Londres com o Dead Kennedys, onde chegaram a gravar uma sessão na BBC Radio com o lendário John Peel (o cara mais legal da história da música e o maior manjador de putarias de todos os tempos).

No retorno de Londres, Randy já não estava mostrando mais tanto interesse e dedicação com a banda e decidiu sair do D.O.A, sendo substituído por Dimwit, que era o batera do Subhumans e irmão mais velho do Chuck.



Mas essa formação não durou muito. Em 1982, nas gravações do EP "War on '45", a banda começava a flertar com o reggae e experimentar novos elementos no som. Chuck e Dimwit discutiram feio durante as sessões de gravação e Chuck, que também já estava enchendo o saco do D.O.A, saiu da banda. Chuck acabou se tornando um dos mais lendários bateristas do punk rock, então: tocou com o Black Flag, Circle Jerks, Social Distortion, Danzig e mais uma caralhada de banda. Com Chuck fora, foi natural que Dimwit assumisse a batera, e Joey convidou Brian "Wimpy" Goble, amigo de infância, para assumir o posto. Brian, na época, era vocal do Subhumans. Agora, o D.O.A. contava 75% da formação do The Skulls, a seminal banda que deu origem ao próprio D.O.A. e o Subhumans. Apenas Dave Greg não tinha participado do Skulls. Com essa formação, continuaram as intermináveis tours e as gravações do EP "War on '45", um dos melhores registros da banda, que mostra um D.O.A muito mais maduro, liricamente e musicalmente.


Em 1983, Gerry Useless (ex-baixista do Subhumans e também amigo de infância dos membros do D.O.A.) foi preso, por seu ativismo político radical de ação direta, que junto com seus parceiros do "Squamish Five" (que também foram parar no xilindró), cometeram ações quase-terroristas que causaram estragos irreversíveis para a cultura capitalista, acreditando que somente causando grandes danos físicos e financeiros poderiam destruir o inimigo. Essa história será contada com mais detalhes em outro post.

De qualquer forma, com a prisão do camarada anarquista muito loco, o D.O.A. acabou iniciando algo que mais tarde se tornaria uma de suas tradições: lançar EPs, singles ou organizar shows beneficentes, em prol de causas políticas. Assim sendo, o EP "The Right to Be Wild", foi lançado em apoio ao amigo ativista. Toda a renda do EP (e dos shows que acabaram fazendo em prol à causa) foram todos destinados às despesas judiciais de Gerry. Se bons advogados já são caros pra cacete aqui, imagina lá no Canadá! O EP tinha uma releitura do D.O.A. da clássica "Fuck You", do Subhumans (que foi regravada pelo Overkill, os metaleiros 666 devem conhecer por essa versão), que é de autoria de Gerry Useless.



Após o lançamento do EP, Dimwit larga o D.O.A. e vai para o Pointed Sticks. No seu lugar entra Peckerwood, ex-batera da clássica Verbal Abuse. Em 1984 as coisas iam bem para o D.O.A, com a primeira tour europeia do grupo (antes, haviam tocado apenas uma vez em Londres com o Dead Kennedys). Na volta para casa, em 1985, Peckerwood foi convidado à se retirar pois não estava agradando, e Dimwit volta. Com sua volta decidem gravar um novo LP, "Let's Wreck the Party". Esse disco mostra um D.O.A. um pouco afastado das raízes punk, e é bem puxado para o hard rock e rock 'n' roll dos anos 70, porém extremamente politizado. Apesar de ser um disco fudido, particularmente acho a produção dele muito bagacera. A tour da promoção desse disco foi a mais longa da história da banda. Foram 8 meses de estrada, 132 shows, 103 cidades diferentes e 13 países. Obviamente a estrada desgastou a banda e Dimwit saiu novamente, então o D.O.A. recrutou Jon Card, ex-SNFU.

Na sequência, já em 1987, gravaram o quinto LP, "True (North) Strong And Free", talvez o disco mais rock 'n' roll da banda. Já acho um registro superior ao anterior, "Let's Wreck the Party", a produção é bem melhor e é um disco mais agressivo. Foi produzido por Cecil English, que iria trabalhar com a banda em pelo menos mais cinco discos.



Porém as tours continuavam inacabáveis e as mudanças de formação constantes. Ken Lester deixou o cargo de "administrador" do grupo, que à essas alturas, já estava bastante profissional. Com ele, Dave Greg também deixou o barco. Em seu lugar, entra Cris Humper, ex-Dayglo Abortions. Com essa formação lançaram um ao vivo chamado "Talk Minus Actions Equals Zero" e em 1990 o disco "Murder", onde atingiram seu ápice na maturidade lírica e musical, com vários elementos de heavy metal e rock 'n' roll dos anos 70. A banda continuou flertando com outros ritmos e mais tarde também começariam a experimentar (bastante) com elementos do ska. Em minha opinião, "Murder" foi o último grande disco do D.O.A, claro, não que os outros discos sejam ruins, porém, talvez pelas constantes trocas de formação e falta de inspiração, jamais conseguiram atingar o nível de seus primeiros discos novamente. Após uma tour para promover o disco, a banda entrou em recesso.

Em 1992 Brian Goble e Joey voltam com o D.O.A. e desde então a banda nunca mais parou, mesmo com as constantes mudanças de formação, fazendo shows e tours com frequência e sempre lançando discos novos, quase sempre com material inédito. Em 2011 ou 2010 (não lembro), inclusive vieram pela primeira vez ao Brasil. Houveram três datas, se não me engano, no Rio de Janeiro, em São Paulo e Curitiba. Não tive a oportunidade de ir em nenhum, e não faço ideia de como tenham sido os shows, mas creio que para a nossa desgraça eles nunca mais voltem (desculpem o pessimismo, mas é o mais provável)... O último disco do D.O.A. foi "We Come In Peace", que foi lançado no ano passado e inclusive conta com a participação especial de Jello Biafra em uma das faixas, "We Occupy". Aliás, um bom disco, talvez o melhor da banda desde o "Murder". Vale a pena dar uma procurada e ouvir.


Para conhecer a obra dos reservas morais do punk canadense, deixo para download os discos "Someting Better Change", "Hardcore '81", "Let's Wreck the Party", "True (North) Strong and Free" e o EP "War on '45", em minha opinião, os melhores da banda. "Keep on drivin' to hell and back!"

ROT - "Subversive, not alternative!"


De Osasco, interior de São Paulo, surgiu a melhor banda de grindcore do Brasil e uma das melhores também a nível mundial: o ROT. A banda foi formada em 1990 por Mendigo (guitarrista) e Marcelo (vocalista), embora antes disso os caras já estivessem envolvidos no undeground da região, envolvidos em outros projetos, fazendo fanzines e organizando eventos. Completavam a formação do ROT Babu (baixista) e Júlio (baterista), porém passaram por várias trocas de formação (quem quiser conferir o histórico inteiro, dê uma sacada aqui) e mais tarde, a banda adotaria um segundo vocalista, Jeferson.

O ROT mandava um grindcore direto e sem frescuras, bem na linha do Napalm Death antigo (dos belíssimos discos "Scum" e "From Enslavement to Obliteration"), com muita influência crust, músicas curtas e letras com temática social, política, filosófica ou mesmo retratando acontecimentos do cotidiano dos integrantes da banda.



O ROT, enquanto existiu sempre foi uma banda muito ativa no underground nacional, fez várias gigs pelo Brasil inteiro, chegou a fazer duas tours europeias (em 1996 e 1998) e lançou bastante material, entre discos, EPs, material ao vivo e splits, inclusive com bandas notáveis como o Agathocles (se bem que toda banda de grindcore do mundo deve ter split com o Agathocles...), Psycho, Subcut e Life Is A Lie.

A banda encerrou suas atividades em 2008, porém deixou um legado importante e invejável para o grindcore nacional (e porque não, mundial?) e uma fiel legião de fãs, sendo que até os dias de hoje é uma banda de "culto" pelos fãs da barulheira.



Pra quem quiser conferir uma das mais grandiosas bandas que esse país falido já teve, deixo aqui a coletânea "Old Dirty Grindcores", lançada em 2002 pela Rotthennes Records em parceria com a 2+2=5. Esse disco compila 65 músicas de todas as fases da banda, material retirado de splits, demos e EPs e é uma boa pedida pra quem quer conhecer o som dos caras, pouco mais de 1 hora de pura violência e grindcore brutal, sem frescuras.

Cape Of Bats - Vampirismo gótico blackened punx


Mais um post curto e direto para esse clima de carnaval, nesse clima de fantasias e felicidade, vamos falar de algo completamente oposto: vampiros (que existem) e agressividade...

Cape Of Bats é um projeto controlado pelo irlandês Francis Kano e conta com a participação da baterista americana Cassidy McGinley, porém ao vivo contam com a participação de outros membros de bandas como Coffin Dust e Castle Freak.


No quesito sonoro, a banda faz uma mistura de sons bem peculiar, indo do d-beat e power violence, passando pelo black metal e até flertando com darkwave e surf music. Nomes como Samhain, Septic Death, Mighty Sphincter, Danse Macabre e Müttilation certamente deve ter inspirado essa turma.
 
 

Liricamente e tematicamente, a banda escreve basicamente sobre assombrações, medo e horror. Porém o destaque é o lançamento do EP Transylvania, que seria um trabalho conceitual sobre Abhartach, uma das possíveis influências pro mito vampiresco do Drácula. Uma lenda curiosa de se conferir.

 

Aliás, um detalhe curioso sobre o último EP deles: Nas gravações, foi usado um piano velho, usado e desafinado o qual a baterista da banda tem, além de que o instrumento usado ficava dentro da sala de onde ocorreu um violento assassinato. De acordo com Francis, a história por trás do piano combinava perfeitamente com o conceito e daria um ar ainda mais cinematográfico para as composições.
 

Cape Of Bats é uma banda única de se ouvir, principalmente se procuras algo novo e com identidade, ou apenas procura algo sombrio pra ouvir enquanto assusta menininhas fãs de Anne Rice e Van Helsing.

Você pode conferir e baixar de graça o EP Transylvania aqui. Ou conferir material no bigcartel da gravadora da banda. Apreciem:

Seven Sisters Of Sleep - Drogadição sonora


Um post curto, direto e stoner bagarai, ótimo para o clima de chuva que está dominando esse domingo, digno de missas negras e rituais ocultistas, hoje lhes apresento a banda Seven Sisters Of Sleep.


A banda californiana tem o seu nome inspirado no livro homônimo escrito por Mordecai Cooke, tal obra fala sobre a utilização e criminalização das drogas pela história da humanidade. O som desses caras realmente remetem a drogadições, já que flertam com 2 dos estilos de metal mais chapados do mundo: Stoner e Sludge.


No quesito musical, Seven Sisters of Sleep tem algo curioso, misturando Stoner/Sludge com hardcore e grind. Blast beats, riffs arrastados, afinações e tonalidades de guitarras quase sabbathicas, vocais odiosos e completamente abafados, é a trilha sonora para pesadelos criados na base de bad trips.


No quesito letras, a banda fala de religião, heresia, julgamentos finais, drogas e alucinações. A própria banda fez um mini DVD de suas músicas misturadas com cenas de filmes como Fausto e Montanha Sagrada, um acompanhamento visual importante para sacar sobre o que a banda se trata.


Por enquanto eles só lançaram um CD e alguns EPs/Splits. Mas animem-se, esse ano eles lançarão seu segundo cd, Opium Morals, pela A389 Recordings. Enquanto isso curta o sons dos vídeos e lhes deixo aqui o álbum auto entitulado deles.


Discografia:
Seven Sisters Of Sleep (self titled full length) - 2011
Light Bearers of Darkness (DVD) - 2011
Split com Children Of God - 2011
Seven Sisters Of Sleep EP - 2012
Opium Morals - Para sair em 2013

Do limbo de Detroit - O Death original


A cena de Detroit nos anos 60 e 70 foi única e seminal. Deveria ter alguma coisa na droga que eles tomavam. Até hoje a cidade vem nos presenteando com boas bandas, mas foi com os Stooges e o MC5 que a "cidade dos motores" americana teve seu nome fixado na história do rock 'n' roll, podendo se dizer até que, lá foi onde o punk nasceu. Porém muitas bandas daquela época e que de certa forma também ajudaram a formar a sonoridade direta e agressiva que anos mais tarde convencionou-se a chamar de punk rock acabaram sendo esquecidas com o tempo, e o Death é uma delas.

É claro que não estamos falando do Death dos anos 80, a banda de death metal que todos conhecemos. Esse é o Death original, que inclusive eu gosto mais. A história da banda por muito tempo foi esquecida e a sua obra também. Até 2009, tudo que se conhecia da banda era um raríssimo compacto com as músicas "Keep On Knockin'" e "Politicians In My Eyes", lançado em 1976, e se tinham muito poucas informações sobre esses pioneiros. A banda permaneceu no limbo por 35 anos, até que Bobby Hackney Jr., filho de um dos integrantes da banda, decidiu resgatar a obra e a história da banda de seu pai e seus tios.

O Death foi formado por volta de 1971, pelos irmão David (guitarra e vocal), Bobby (baixo) e Dannis Hackney (bateria), e no início, tocavam apenas soul music e funk. Todos eles tinham uma tendência roqueira, mas sonoridade da banda mudou para o rock 'n' roll em 1973 após os irmãos terem ido à um show do Alice Cooper. Adotaram também o nome mais "roqueiro" que puderam pensar: Death. Porém isso acabou por emperrar os sonhos da banda.



A banda começou a tocar em clubes na zona leste de Detroit, onde a maioria dos habitantes, assim como eles, eram negros, e desde sempre causaram um certo espanto, pois faziam um som muito agressivo e pesado para a época, até mesmo em relação aos Stooges e ao MC5! O Death foi um grupo muito à frente do seu tempo e talvez por isso não tenha sido compreendido na sua época.

Quando decidiram gravar, em 1974, David, que por ser o mais velho dos irmãos, escolheu um estúdio para realizar as gravações. Assinaram com Brian Spears e a Groovesville Productions, e dessas sessões gravaram 7 músicas. Brian Spears acompanhou todas as sessões e sempre levou fé no grupo. Após o término das gravações, foram até Nova York tentar negociar com a Columbia, porém uma das exigências para a banda fechar o contrato era que a banda mudasse de nome. É claro que eles recusaram, pois acreditavam que poderiam ir longe e assinar tranquilamente com outra gravadora, sem precisar mudar o nome ou alterar o som. Infelizmente isso nunca se realizou e nessa época lançaram apenas o compacto em 1976, completamente independente, "Keep On Knockin'/Politicians In My Eyes", que não vendeu nada na época e acabou sendo esquecido pelo tempo. Decepcionados, os irmãos decidiram acabar com o Death ainda em 1976.



David morreu em 1982 e Bobby e Dannis montaram o Lambsbread, grupo de reggae que está na ativa até hoje. A "ressurreição" do Death é uma história bastante curiosa: em 2008, Julian, um dos três filhos de Bobby, ouviu o som do Death em uma festa e pensou ter reconhecido a voz do tio. Pediu informações sobre a banda e intrigado, contou para seu irmão Bobby Jr. e ambos decidiram pesquisar na internet sobre a banda, e ficaram sabendo de tudo. Ao questionar o pai, ele contou toda a história da banda e os filhos, entusiasmados, decidiram resgatar o legado de sua família. Conseguiram. Em 2009, depois de 35 anos no limbo, saiu pela Drag City o excelente disco do Death, que recebeu o sugestivo título de  "...For The Whole World To See". Além das duas faixas lançadas no raríssimo compacto de 1976, trouxe as outras 5 faixas que estariam no LP da banda. O disco foi muito bem recebido e em 2011 a Drag City resolveu resgatar mais material do Death, que foi lançado no disco "Spiritual, Mental, Physical". Tratam-se de demos e registros de ensaios daquelas sessões de 1974 na Grovesville.



Demorou, mas hoje em dia o legado do Death é conhecido e respeitado. Baixe aqui o sensacional "...For the Whole World to See".

From Ashes Rise - Diretamente das cinzas


Ontem falamos aqui no blog sobre o The Estranged, um dos muitos projetos de Derek Willman. Derek na verdade é mais conhecido pelos seus projetos de barulheira, como o Hellshock e o From Ashes Rise, tema do post de hoje. Aliás, o post de hoje é especial, é um material colaborativo que o nosso camarada Homero Pivotto Jr. (vocalista da banda de hardcore/crust Tijolo Seis Furos e apresentador do programa Let's Start na Rádio Putzgrila, que inclusive fechou uma parceria conosco recentemente) nos enviou. Trata-se de uma entrevista com Brad Boatright, vocalista, guitarrista e um dos fundadores do From Ashes Rise, feita por ele um tempo atrás. Supimpa, não? Aí segue!


O From Ashes Rise foi criado na segunda metade dos anos 90, em Nashville (Tenessee), sul dos Estados Unidos. O som, em uma definição simples, é algo como o elo perdido entre o hardcore americano – rápido e urgente – e o europeu – mais pesado e sombrio. Além disso, incorpora passagens melódicas e elementos do heavy metal inspirados por bandas como Black Sabbath e Corrosion of Conformity, por exemplo. Grupos com essa musicalidade acabaram enquadrados em um estilo que se convencionou chamar de neocrust. Nele, também estavam inseridas bandas como Tragedy, World Burns to Death, Hellshock e His Hero Is Gone – um dos pioneiros nesse tipo de mistureba.

Entre 1997 e 2005, o From Ashes passou por algumas mudanças na formação e lançou oito registros, entre full lengths, compilações, splits e gravações ao vivo. A dedicação rendeu reconhecimento no meio alternativo e inúmeras turnês. Mas também trouxe o desgaste que culminou em alguns anos de silêncio. Entretanto, uma carreira concreta, apesar de curta, não poderia encerrar prematuramente. Então, em 2009, o atualmente quarteto Brad Boatright (voz e guitarra), Dave Atchison (bateria), Derek Willman (baixo) e John Wilkerson (voz e guitarra) decidiu retomar o pesadelo sonoro. Após a volta, o FAR já disponibilizou um compacto com duas músicas e um videoclipe muito bem produzido. Para 2013, um disco de inéditas está sendo preparado.

Para falar sobre o retorno, o início da banda, as influências, novas formas de divulgação e o que deve vir pela frente, conversamos, por e-mail, com Brad Boatright (36 anos), um dos fundadores do FAR.



Brad, você conhece algo sobre nosso país ou nossa cultura? E sobre o cenário da música pesada do Brasil, já ouviu algo?

Brad Boatright – Com certeza! Eu fiz uma turnê pelo Brasil quando estava no World Burns to Death, há uns 10 anos. Bandas como Ratos de Porão, Armagedom, Lobotomia, Olho Seco, Cólera… A lista é sem fim, e a cena brasileira é mantida em alta por aqui.

O From Ashes Rise começou em 1997. Antes disso, você teve outras bandas?

Brad Boatright – Eu estava em uma banda chamada The Cooters, John Wilkerson (também guitarrista e vocalista do From Ashes Rise) tocou no Gristle e o Dave Atchison (baterista) fez parte do Brazen Youth.

Como você se envolveu com arte, principalmente música pesada e cultura underground?

Brad Boatright – Isso sempre foi muito acessível para nós, e parecia natural. A agressividade e a raiva da música underground – especialmente por sermos de onde somos – foi atraente. Isso sempre pareceu como uma segunda natureza.

Que tipo de música você costumava ouvir e quais artistas te inspiraram a formar uma banda?
Brad Boatright – Black Flag, Discharge, Corrosion Of Conformity, Amebix, Neurosis… Essas foram bandas que nos formaram e significaram algo para nós. São artistas que excursionaram incessantemente, ou que tinham uma sonoridade única que realmente nos influenciou.

Aproveitando, por favor, diga cinco bandas que ajudaram a formar a identidade musical do From Ashes Rise?

Brad Boatright - Neurosis, Black Flag, Discharge, Corrosion of Conformity e Slayer.

Atualmente, o From Ashes Rise é seu único projeto musical?

Brad Boatright – Sim, é! Derek Willman (baixista do FAR) é muito ativo com suas outras bandas (Hellshock, The Estranged) hoje em dia. Todos nós tendemos a fazer parte de projetos que vêm e vão. O mais recente foi o Lebanon, no qual eu e Derek nos juntamos aos amigos Joel Armstrong and Josh Smith.

Pode-se dizer que o From Ashes Rise é sua banda mais relevante? O que mudou na sua vida desde que o grupo começou?

Brad Boatright – Bom, claro que o FAR é uma grande parte das nossas vidas. Estamos envolvidos com isso há 15 anos. Todos cresceram como pessoas desde que nos conhecemos, ainda adolescentes.



O From Ashes Rise soa pesado e intenso, mas tem algumas partes melódicas também. De onde surgiu a ideia de usar esses elementos um pouco mais trabalhados?

Brad Boatright – Definitivamente isso vem de aspectos do metal ou do rock. Mas, também de um sentimento de que precisávamos de algo que levasse o som típico hardcore para além, sem depender de mudanças de ritmo. Bandas como Iron Maiden, Thin Lizzy e outras usam melodias para criar um som único, então sempre pensamos: por que não tentar isso em um contexto hardcore?

Sua música é intensa, pesada e sombria. Ao mesmo tempo, é enérgica e raivosa. É difícil ouvir From Ashes Rise e não sentir vontade de extravasar de alguma maneira. Desde o começo a ideia era criar uma musicalidade assim ou isso aconteceu naturalmente, conforme o tempo foi passando?

Brad Boatright – Rolou naturalmente. Todos da banda acreditam na intensidade dentro da música.

O FAR é considerado como uma banda de ‘neocrust’. Vocês gostam desse rótulo? O que pensa sobre isso?

Brad Boatright – Rótulos aparecem e desaparecem… Nós apenas tocamos o que queremos ouvir, o que estamos escutando em nossas cabeças.

Grupos como Tragedy e World Burns to Death executam uma linha de som similar a de vocês. Vocês têm contato com essas bandas? Qual a relação do From Ashes Rise com esses outros artistas?

Brad Boatright – Claro que temos, somos todos uma família realmente unida! Eu toquei com o World Burns to Death por alguns anos, e o Tragedy dividiu com a gente um espaço para ensaios. É uma comunidade muito próxima formada por bons amigos.

Esse tipo de som – que mistura punk/hardcore e metal de uma maneira sombria – conseguiu espaço na última década. Por que você acha que o estilo ganhou importância ao redor do planeta?

Brad Boatright – Acho que, ultimamente, é algo progressivo. Existem bandas que emulam isso, e outras que se originam. Eu não diria que caímos em nenhuma das categorias especificamente, mas, na última década, a divisão entre esses dois tipos de som cresceu. Talvez seja por causa das turnês, ou ainda apenas porque o som é atraente. Eu realmente não saberia dizer. A gente apenas tenta fazer nossa parte para ajudar no crescimento da música.

O From Ashes Rise encontrou espaço não só no meio punk/hardcore e no metal, mas também na cena alternativa. Você acredita que é por conta da sonoridade ou dos ideais da banda?

Brad Boatright – Provavelmente o som mais do que qualquer coisa, mas também a cena da qual viemos. Excursionamos incessantemente nos circuitos do ‘faça-você-mesmo’, o que, por tradição, tem uma inclinação mais punk.

Falando sobre ideais… Boa parte das faixas do FAR aborda temas sociais. De onde vocês tiram inspiração? É você que escreve as letras?

Brad Boatright – Todos na banda escrevem letras, e elas são “observativas”. Buscamos inspiração no que está em nossa volta. Todas as letras são abertas à interpretação.

O From Ashes Rise deu um tempo entre 2005 e 2009 em função das exaustivas turnês e pressões internas. Você poderia nos dizer o que realmente ocorreu? Rolaram conflitos?

Brad Boatright – Estávamos exaustos! Viver em uma van por meses pode criar pressões e conflitos. Não estávamos felizes com nosso processo criativo, então preferimos dar uma pausa nas atividades.

Em sua jornada, o From Ashes Rise já trabalhou com algumas gravadoras interessantes. Uma delas foi a Jade Tree (na qual o FAR trouxe peso à um catálogo composto, em sua maioria, por bandas mais melódicas). Agora, a banda está na Southern Lord e faz parte um cast variado de doideiras. Como essa experiência ajudou o FAR a se desenvolver como banda?

Brad Boatright – É ótimo trabalhar com gente que mantém as coisas unidas! Eles podem prover muitas aberturas de espaço, e isso gera oportunidades para shows e colaborações. Além disso, faz com que sejamos ouvidos com mais facilidade. 

Seu ultimo disco de estúdio é o Nightmares (2003). Em 2012, vocês liberaram um compacto (Rejoice the End/Rage of Sanity) e o videoclipe de ‘Rejoice the End’. Esses trabalhos marcam as primeiras músicas criadas depois do retorno? Como foi a concepção do material?

Brad Boatright – Foi fantastico! Ambas as faixas (‘Rejoice the End’ e ‘Rage of Sanity’) estavam sendo trabalhadas desde 2005, antes de pararmos de tocar. Estamos realmente contentes com todo o processo e tivemos tempo suficiente para deixar as músicas do jeito que queríamos.



O From Ashes Rise está recebendo apoio de um projeto chamado Scion Audio Visual, desenvolvido pela Scion (subdivisão da empresa automobilística Toyota). De que maneira você acredita que grandes corporações podem ajudar o cenário artístico alternativo? 

Brad Boatright – É estranho, e eu posso achar isso para sempre, mas creio que estamos em uma nova era das comunicações. O lance de as revistas impressas serem a forma dominante de exposição está desaparecendo. A Scion preencheu uma lacuna deixada pela mídia. É um assunto polêmico, mas eu acho válido. Existem várias bandas e músicos que estão sendo beneficiados com o auxílio deles (Scion).

Você tem um estúdio de áudio chamado Audiosiege. Como está indo? Com quais artistas você já trabalhou?

Brad Boatright – Está indo muito bem, e eu estou me dedicando ao estúdio em tempo integral. Eu já trabalhei com toneladas de ótimas bandas e pessoas nos últimos anos: Seas Will Rise, Sarabante, Sleep, High On Fire, Deviated Instinct, SUNN O))), Age of Woe… é uma lista bem longa!

Sobre uma turnê no Brasil, por que, até o momento, isso nunca rolou?

Brad Boatright – Espero que aconteça um dia. Tínhamos planos para ir até o Brasil quando paramos. Eu amo o país!

Para o futuro, o From Ashes tem planos de lançar um novo álbum?

Brad Boatright – Atualmente, estamos escrevendo um disco novo que esperamos lançar em 2013.


Para complementar, aí segue um link para o download do disco "Nightmares" de 2003, o último disco de estúdio lançado pela banda e em minha opinião o melhor trabalho dos caras.

The Estranged - Portland sempre surpreendendo...


Essa é uma banda que conheci recentemente, mas que já está conquistando um espaço especial no meu coração. De Portland, cidade americana que já vem nos presenteando com ótimas bandas já faz um bom tempo, o The Estranged é formado por Derek Willman (baixo e vocal), Mark Herman (guitarra) e Keith Testerman (bateria), membros de bandas de crustcore já bastante conhecidas pelos amantes da barulheira como From Ashes Rise, Warcry, Hellshock e Remains of The Day, o Estranged aposta num som diferente do executado pelas já citadas bandas de seus membros, aliás, completamente diferente. Com fortes influências de bandas como Wipers, New Model Army, Mission of Burma e mesmo Joy Division, o Estranged manda um som com uma atmosfera obscura e depressiva, um som que por muitas vezes soa angustiado e urgente, o mesmo sentimento que se tem ao ouvir Wipers ou New Model Army, que não por acaso a banda cita como influências. Muitos vem rotulando a banda como "pós punk", mas esse é um rótulo que, apesar de ser atribuído à várias bandas que eu gosto, sempre considerei muito vago e confuso, então é melhor eu não entrar nesse mérito.



A banda foi formada em 2008 e lançou no mesmo ano uma porrada de singles 7'' e um álbum, "Static Thoughts", aliás, uma obra prima. Aqui a influência de Wipers é monstra, é um trabalho bem voltado ao punk rock, porém com uma atmosfera depressiva e angustiada. O álbum foi lançado em CD e LP. Em 2009, sai uma coletânea em CD reunindo todos os singles lançados até então, chamada simplesmente de "The Singles". Já em 2010 sai o último disco da banda, "The Subliminal Man". Foi lançado apenas em LP, e mostra um som mais trabalhado, mais sofisticado, porém com uma atmosfera muito mais obscura e depressiva. Ambos os discos são obras primas modernas e eu realmente não consigo decidir qual dos dois é o melhor, apenas recomendo-os ao máximo.



Não sei se a banda está na ativa pois com excessão de Mark Herman todos os membros da banda tem seus projetos paralelos, Keith toca no Warcry e no Hellshock, Derek também toca no Hellshock e no From Ashes Rise, e tem mais uma caralhada de projetos. Os lançamentos da banda tem saído pela Dirtnap Records, uma gravadora mais que supimpa que tem lançado muita coisa legal de garage rock, punk, hardcore e afins. Vale a pena dar uma conferida nos lançamentos dessa gravadora. Sem mais delongas, baixe aqui Static Thoughts e The Subliminal Man.