O Cúmplice - Marchando para o sul


Ao menos para mim, O Cúmplice, de São Paulo, foi uma das maiores surpresas desse ano no underground nacional. Com influências que vão desde o punk caótico de bandas como Anti-Cimex e Discharge, passando pelo peso de grupos de culto ao bode como o High On Fire e Black Sabbath e ainda com algumas pitadas de grind e death, O Cúmplice manda um som único, pesadíssimo, furioso e de extrema qualidade. O EP 7'' que eles lançaram no final do ano passado, com três músicas, foi uma das maiores pauladas que ouvi ultimamente. Coisa impressionante mesmo.

Fiquei sabendo de antemão por meio de amigos agitadores da cena de Porto Alegre que os caras iriam fazer uma tour aqui pelo RS no final de maio e início de junho, então rolou a oportunidade de fazer uma entrevista com os caras. Falamos com o Marcelo, vocalista da banda (e também um dos idealizadores do projeto "Hardcore 90 - Uma História Oral", que acho que é assunto pra outro post no futuro), sobre a história d'O Cúmplice, suas influências, sobre o giro que os caras vão dar aqui pelo RS e outras marotices. Confiram!


Apesar da banda ser enquadrada dentro do crust, O Cúmplice apresenta um estilo um pouco peculiar, mais trabalhado e fugindo um pouco dos "padrões" do estilo. Quais são as influências da banda?

Marcelo:
Ouvimos muita coisa, e no fundo tudo isso nos influencia na forma de compor e tocar. Sempre tentamos criar algo que não seja muito “quadradinho”. Acho que muitas bandas veem mérito em soar o mais parecido possível com suas influências. Mas pessoalmente não me interesso em fazer as coisas dessa forma. A gente absorve de tudo um pouco e emprega nesse “formato” de som que criamos para nós. Nós sabemos o que queremos fazer e como soar. A base é um metalpunk agressivo, esse é sempre um ponto de partida, mas aos poucos, outros elementos de crust, de death metal, de hardcore mais clássico vão sendo agregados. No começo da banda ouvíamos muito High on Fire, Cursed, mas como não temos tanta competência, o som ficou desse jeito que as pessoas conhecem...

Todos vocês já tiveram experiência em outras bandas anteriormente, inclusive algumas bem reconhecidas, como o I Shot Cyrus e o Abuso Sonoro, por exemplo. Como a banda se formou e o que motiva vocês a ainda estarem nessa? Algum de vocês atualmente toca em alguma outra banda além d'O Cúmplice?

Marcelo:
Pouca gente sabe, mas a banda existe a quase oito anos. Eu e Alessandro montamos a banda, numa época que dividíamos apartamento. Já tocávamos juntos noutra banda que foi o embrião do Noala. Eu tocava no Constrito que estava meio que entrando em hibernação. Mas em comum, tínhamos a vontade de montar uma banda que juntasse o que gostávamos de velho punk (Discharge, Anti-Cimex, Varukers e outras) com elementos do velho metal (Motörhead, Venon, Black Sabbath e afins). Da formação original sobramos apenas nós.

O princípio de amizade é o que nos guiou até aqui e deu o laço que mantem essa formação. Afinal, alguns na banda vêm tocando juntos, de banda em banda, a pelo menos uns 15 anos. Com Alessandro toquei no Intifada (proto-Noala) e no Diáspora, nessa última estava o Cauê e o Ricardinho (No Violence) que foi o baterista original d'O Cúmplice. Com o Cauê eu toquei no Algoz mas nem chegamos a gravar. Quando o baixista original saiu, entrou o Eduardo Vaz (hoje no Urutu) que tocou comigo no L'Enfer e tinha o Luiz que hoje toca bateria conosco. A Karen sempre foi uma amiga próxima, e quando Eduardo saiu, foi mais do que natural ela ocupar o lugar dele.

Acho que falo por todos quando digo que gosto das pessoas envolvidas nesse projeto. Continuo gostando de música rápida e pesada, onde posso exercitar o jeito de escrever e falar do que me incomoda ou o que me dá raiva. A banda é mais que um meio de por ideias, é um exercício de criatividade, de se reinventar, de brincar um pouco com o que se sabe fazer e aprender mais com os amigos.

Além d’O Cúmplice toco noutro projeto, que ainda não tem nome, é um metal mais experimental, lento. Ainda está bem verde, mas tem me divertido e sido desafiador. O Alessandro toca no Noala como falei. O Cauê tem vários projetos, mas entre outras coisas ele toca no The Harm e eventualmente no Fim do Silêncio.



De material lançado, O Cúmplice tem um split com a banda carioca de stoner rock Te Voy A Quebrar e um EP 7'' com três sons. Esse ano vocês pretendem lançar material novo, já estão planejando um full?

Marcelo: Nosso processo de composição é lento. Temos alguns sons novos que ainda estão sendo “amadurecidos”, ou seja, tem a estrutura montada, mas está passando por ajuste. A ideia é que quando chegarmos a uma quantidade legal, entremos em estúdio e façamos o primeiro full da banda. De preferência em LP. Pretendemos que seja até o fim do ano, mas somos enrolados e com a gente nada é certo ou definitivo nesse quesito. Estamos tentando lançar mais um split com alguns sons, que separamos da sessão de gravação do EP. Esse split talvez saia na forma de outro 7”, ainda esse ano.

Pra quem assiste de fora e está antenado nas novidades, a cena de São Paulo parece ser bastante rica, com várias bandas surgindo o tempo todo e shows rolando direto. A coisa é assim tão bonita como se parece ou a realidade é outra?

Marcelo: A cidade é grande, e a cena hardcore (underground, alternativa, ou como você preferir chamar) hoje tem muito mais gente envolvida do que anos atrás. Paradoxalmente, existe tanta coisa rolando que fica até difícil acompanhar. O que eu acho legal disso é que tem para todo gosto. Se você curte crust, ou mosh, ou algo mais experimental, grindcore ou metal extremo, punk tradicional, tem sempre algo rolando. O que não quer dizer que esteja todo mundo em sintonia. Ou que exista um “espírito de irmandade” amarrando tudo isso. O que existe são pessoas fazendo o que gostam. Tocando com quem tem afinidade. E no meio disso existem as relações humanas, que podem ser amigáveis ou conflituosas. Sinceramente, não me preocupo com isso. Falando por nós, nossos shows em geral são pequenos, basicamente com amigos. Se mais gente chegar, será bem vindo. Se ficarmos na mesma também não me incomodo. Quando falo isso, sempre lembro do encarte da discografia do Rorschach, onde eles falavam algo como “Rorschach fez o primeiro show tocando para 20 pessoas, e fez o último tocando para 6”. Não é bem isso, mas é quase.




Final do mês de maio e no início de junho a banda estará fazendo um giro aqui pelo Rio Grande do Sul. Quais são as expectativas? Vocês conhecem alguma coisa sobre a cena daqui? Se sim, citem algumas bandas gaúchas que vocês gostam.

Marcelo: São as melhores possíveis, vai ser a primeira vez da banda nessa região e vai ser a nossa 2ª tour em muitos anos. Estamos ansiosos, é sempre bom viajar para tocar. Rever amigos, conhecer gente nova. Quanto ao que conheço daí bom, estou meio desatualizado, e a tour vai ser legal para conhecer bandas novas, assim no sopetão quando me falam do Rio Grande do Sul, o que me vem a mente é: DeFalla, Replicantes, 3D, Pupilas Dilatadas. Ornitorrincos (piro na banda!) Velho (ex de Câncer), xAMORx, Gaúcho da Fronteira (hehehe) e o antigo Facão 3 listras.




Recomendem uma sonzeira marota pra gurizada que acessa o blog:

Marcelo: Cara, de bandas nacionais recomendo fortemente: Meant to Suffer, StillxStrong, The Black Coffins, Infamous Glory, Defy, Noala, Onitorrincos, Deaf Kids, Inner Self, The Voy a Quebrar, Tuna, Reiketsu, Rakta, Test, Cadáver em transe, Clearview e Bandanos.

De som internacional no momento, estou com fixação com bandas com a palavra “ômega” no nome: Omega Massif (Alemanha), Deathspell Omega (França), Alpha & Omega (Estados Unidos), hehehe. Além disso, Gust (Suécia), Hierophant (Itália), Rise and Fall (Bélgica), Baptists (Canadá), Doomriders (EUA), Orchid (EUA). Também ouço bandas velhas com certa frequencia: Napalm Death, Morbid Angel, Bolt Thrower, Neurosis, Integrity, Earth Crisis, His Hero is Gone, Sepultura, Converge, Godflesh, Orbituary, Both, Burndt by the Sun, Eyehategod, Brutal Truth, Motörhead, Terrorizer, Black Sabbath e por aí vai…

Façam suas considerações finais: agradecimentos, xingamentos, dê um recado para os leitores do blog, mande os tomar nas pregas, deixe contato para shows... Esse espaço é livre!

Marcelo:
Valeu aí rapaziada, pelo convite da entrevista. Um obrigado especial a todos os envolvidos nos preparativos e correrias da tour. Tenho certeza que nossa experiência aí será a melhor possível. E quem puder apareça para ver que somos muito piores ao vivo do que gravados, hehe.

O Cúmplice é:
Marcelo Fonseca – voz
 Alessandro França Soares – guitarra
Cauê Nascimento – guitarra
Karen Pellegrini – baixo
Luiz Sabateh – batera

Página d'O Cúmplice no facebook
Ouça aqui o EP 7'' d'O Cúmplice

Pra quem for do RS e estiver interessado, essas são as datas da tour aqui pelo estado:
30/05 - Black Stone, em Porto Alegre
31/05 - Eclipse Pub Bar, em Sapucaia do Sul
01/06 - Vó Zuzu Atelier, em Porto Alegre, no final da tarde (marketing pessoal - Viruskorrosivus, banda minha e do Rodrigo, toca nessa gig)
01/06 - B.I.L. na Musicollege, em Canoas, na noite

Para mais informações dos shows, fiquem ligados no facebook dos caras.

Radio Birdman - Os mestres do punk rock 'n' roll australiano


Na segunda metade dos anos 70, o underground australiano presenciou um fenômeno de movimentação contracultural único. Inúmeras bandas surgiam nas garagens de Sidney ou Melbourne, influenciadas pelo rock 'n' roll de Detroit/Ann Arbor, pelo rock garageiro americano dos anos 60 e mesmo pelo powerpop e pela surf music. Embora muitas das bandas dessa cena como o The Saints, Hellcats, The Visitors e o Radio Birdman (banda que será abordada hoje) sejam enquadradas no meio punk, e mais tarde inclusive tendo "adotado" o rótulo, elas tinham algo peculiar, que as destacavam das demais bandas do gênero na época. Talvez a remota localização do continente australiano aliada às mais variadas influências dessas bandas tenham ajudado a criar algo único, especial.

O Radio Birdman é uma das principais bandas dessa cena australiana de punk rock/garage rock. O embrião da banda tem seu início em 1972, quando Deniz Tek, americano, natural de Ann Arbor e que presenciou todo aquele turbilhão da cena underground da região na época, incluindo shows do MC5, Stooges e The Up, mudou-se para a Austrália (Sidney), com a intenção de estudar medicina. Tek era um ótimo guitarrista e não tardou para montar uma banda com os amigos da faculdade, chamada Screaming White Hot Razor Blades. Eles faziam apenas covers de clássicos dos anos 60, principalmente Rolling Stones. Houveram constantes mudanças na formação do grupo, que chegou a mudar de nome duas vezes, primeiro para Cunning Stunts e depois T.V. Jones, já em 1974. À essas alturas, já trabalhavam em músicas próprias, e inclusive chegaram a gravar material para o que seria um compacto 7'', que jamais foi lançado, pois acidentalmente a fita master foi apagada. Uma das faixas gravadas para o compacto do T.V. Jones era "Snake", mais tarde regravada pelo Radio Birdman. Desmotivados, não demorou muito para a banda encerrar suas atividades.



Na mesma época, outra banda chamada The Rats tocava pelos arredores de Sidney, fazendo covers de New York Dolls, Stooges, MC5, Kinks e afins. A aproximação dessa galera com Deniz Tek foi natural, e o vocalista do grupo, Rob Younger, logo se tornou um grande amigo de Tek e passaram a dividir uma casa. Pouco tempo depois do T.V. Jones acabar o Rats seguiu o mesmo caminho. Foi ainda mais natural que Rob e Tek resolvessem formar um novo grupo. Para completar o time, chamaram o baterista Ron Keeley e o baixista Carl Rourke, que eram do The Rats e o tecladista Pip Hoyle, que era do T.V. Jones. Com essa formação, nascia o Radio Birdman. O nome da banda surgiu à partir de um erro na audição de "1970", do Stooges, onde eles pensavam que Iggy Pop cantava "radio birman" ao invés de "radio burnin'" nesse verso da canção: "Outta of my mind on a saturday night /1970 rollin' in sight /Radio burnin' up above/Beautiful baby, be my love".


De início, a banda tirava vários covers, mas foram acrescentando cada vez mais músicas próprias em seu repertório e começaram a adotar uma postura mais agressiva e enérgica nos palcos. Com isso, começaram a atrair um público mais radical, e nisso os shows quase sempre terminavam em tretas, o que acabou resultando que a banda fosse banida de diversos pubs de Sidney, que além de temerem por confusões por parte do público, achavam o som do Radio Birdman agressivo demais. E eles se convenciam que o caminho a ser seguido era tocar cada vez mais rápido, mais alto e mais pesado. Os shows ficavam cada vez mais escassos, porém a fama aumentava, principalmente pela imagem de durões, doidões e barulhentos que passavam. Além disso, foram publicados alguns artigos sobre a banda na hoje lendária RAM Magazine. O problema é que haviam cada vez menos lugares para o Radio Birdman se apresentar e em pouco tempo foram proibidos de tocar em toda e qualquer casa de shows em Sidney. A solução foi tornarem-se residentes em um dos poucos espaços que ainda os aceitava, a Oxford Tavern. Ao mesmo tempo, Tek e Pip Hoyle chegavam ao quinto ano do curso de medicina, o que tornava o tempo dos dois bastante escasso. A situação fez com que o Radio Birdman diminuísse drasticamente o número de aparições ao vivo. Se era ruim por um lado, por outro era bom, pois sempre que se apresentavam na Oxford Tavern, era considerado um evento e a galera comparecia em peso.

Na metade de 1976, a banda já tinha um grande público, e decidiram então entrar em estúdio para gravar um compacto duplo, com 4 faixas. "Burn My Eye" é um clássico do rock 'n' roll australiano e hoje é um raro item de colecionador. O disco, na época, foi vendido via correio por anúncios da RAM Magazine e teve uma tiragem bastante limitada, que esgotou rapidamente. 



Em 1977, a Oxford Tavern correu um grande risco de ser demolida, porém a banda se mobilizou para impedir o fim de um dos únicos locais que ainda os aceitavam, que logo após passou a se chamar Oxford Funhouse. Não só salvaram o espaço como o transformaram em um dos principais lugares para o desenvolvimento da cena underground em Sidney daquela época.

Ainda em 1977, o Radio Birdman lança seu primeiro disco, "Radios Appear". O disco custou apenas 7 mil dólares e de princípio, foi distribuído da mesma forma que o EP "Burn My Eye", via correio através de anúncios da RAM. Mas não demorou muito para aparecerem algumas lojas interessadas e o disco teve ótima aceitação em todo o país. Poucas semanas depois, a WEA australiana ofereceu um contrato para distribuir o disco, que atingiu o 35º lugar dos discos mais vendidos naquele ano. Após várias mini-tours pelo território australiano, boas vendas de discos, músicas tocando direto em programas de rock e rádios alternativas e até mesmo algumas aparições na TV, o interesse de majors pelo grupo cresceu. Acabaram assinando com a Sire Records, que já havia contratado o The Saints, e de olho no mercado internacional, a gravadora preparou uma reedição do "Radios Appear", com algumas diferenças em relação à edição original. Algumas músicas foram totalmente regravadas, outras apenas os vocais, foi adicionado piano em algumas músicas e outras receberam mixagens diferentes. Ambas as versões são ótimas, mas nem preciso dizer que prefiro a original, mais crua.



Após o lançamento de "Radios Appear" fora do território australiano, a Sire arranjou uma tour na Europa para a banda, e o que deveria ser um grande salto acabou sendo um fiasco que culminou no fim do grupo. A tour começou em março de 1978, com pequenos shows em Londres, e a receptividade do público não foi das melhores. Por mais idiota que pareça, o lance do visual pesava muito no início do movimento punk na Inglaterra. Ser punk era ter cabelos curtos e se vestir no padrão Sex Pistols, e toda a banda que fugisse disso não era bem aceita entre o público. Os Ramones sempre foram a única excessão. Além disso, o som deles era considerado "rock 'n' roll demais" para os punks ingleses, que renegavam praticamente tudo que tinha vindo antes deles. E também eram considerados "punks demais" para o público mais roqueiro... Apesar das performances agressivas e enérgicas, o Radio Birdman não foi muito bem compreendido na Inglaterra e a gravadora não deu o maior apoio. Pra piorar, uma prometida tour pelos EUA acabou sendo cancelada. Desgastados, Deniz Tek e Pip Hoyle retornaram à Austrália com a desculpa de que precisavam concluir seus estudos em medicina. Era o fim.

Apesar disso, durante a tour a banda deu um pulo no País de Gales e lá gravou 18 sons para um futuro LP. Com o fim da banda, a Sire adiou o lançamento do disco. Da Austrália, Tek tentou reaver a fita original e lançar o disco pelo menos em seu país. Anos se passaram e a gravadora só enrolava, até que um dia Tek parou de receber respostas e cansado, pegou uma fita cassete que tinha guardado e preservado com 13 músicas da sessão e resolveu lançar assim mesmo. Em 1981 então é lançado "Living Eyes", o segundo disco da banda. Somente em 2005 o disco foi relançado à partir da gravação original, com todos os 18 sons da sessão...



Após o fim do Radio Birdman, Tek, Younger e Gilbert se juntaram ao ex-MC5 Dennis Thompson e ao ex-Stooge Ron Asheton e formaram o New Race, banda que muito em breve será abordada aqui. Pip Hoyle fundou o The Visitors, uma ótima banda com um direcionamento mais new wave/pop. Tek, Younger e Mazuak também chegaram a se reunir várias vezes para algumas apresentações com convidados usando o nome da banda, e inclusive lançaram um disco em 2006, "Zeno Beach", porém desde 2007 parece que não rolou mais nada...

O Radio Birdman é uma das melhores bandas da Austrália e uma das mais importantes também. Seu legado, apesar de curto, merece ser conferido e ouvido com carinho e atenção. Baixe aqui a coletânea "The Essential Radio Birdman: 1974 - 1978", que contém um apanhado de boas músicas da banda para quem quer conhecer o trabalho dos caras.

Integrity - Os pregadores do hardcore apocalíptico (parte 2): A reencarnação como Integ2000


Voltamos de novo com a história do controverso, bizarro e furioso grupo de Cleveland, Ohio. Na primeira parte foi abordada a "era Melnick", que contém os álbuns clássicos da banda. Depois de Seasons In The Size of Days, o Integrity se dissolveu e ficou em silêncio. Mas não por muito tempo...


Em 1999, Dwid volta com a banda, com uma nova formação e sob o nome Integrity 2000 (ou Integ2000, como preferir). Nessa formação havia membros do grupo de metal alternativo Mushroomhead (Dave, Skinny e J. Popson). O primeiro lançamento dessa formação curiosa foi um álbum homônimo, com um apelo mais metalizado e grooveado, o álbum foi tudo menos bem recebido entre os fãs. Além da mudança sonora, uma participação especial no disco chama a atenção, que é nada mais nada menos que Derrick Green do Sepultura, que canta na versão acústica/retrabalhada do som Eighteen, que estava no primeiro álbum da banda.


No meio tempo fizeram um split com Fear Tommorow, que ainda rumava no metal grooveado, porém esse já tinha pitadas de thrash. Além de gravarem um cover surreal de Orgasmatron para um tributo ao Motörhead, nesse cover a semelhança entre os vocais chega a ser absurda:


Após o infame álbum, outro disco foi lançado no ano seguinte, com o nome Project: Regenesis, o álbum contava com 5 músicas novas e 5 covers, um do Slayer e outros absurdamente inusitados como Billy Idol, Dona Summer e Gary Numan.


Depois disso o grupo sofre com outra mudança de formação e em 2001 é lançado o último álbum dessa era experimental, Closure mostra um lado mais sombrio e melancólico na arte destrutiva de Dwid. As influências de industrial e darkwave são muito bem vistas, o uso de elementos eletrônicos, samples, vocais limpos, spoken words e noise perpetuam quase todas as faixas, além de músicas acústicas. Um dos melhores e até mais bem recebidos dos trabalhos dessa era infame. Após isso o Integrity faz outra pausa que não dura muito tempo...


Voltando a ativa em 2003, Dwid ressurge com outra formação, contando com ex-membros do One Life Crew (Blaze e Chubbz) e  Mike Jochum nas guitarras. Com essa formação sai o álbum To Die For, pela Deathwish Records, selo de Jacob Bannon, vocalista do Converge. Com esse disco a banda faz a boa e velha mistura de metal e hardcore que sempre fizeram, rendendo pérolas como To Die For, Heaven's Final War  e Taste My Sin. Apesar do som "modernizado", o disco foi bastante bem recebido pela fanbase, mas a popularidade sempre foi a menor das preocupações de Dwid.


Desde o ocorrido, a banda não toca nenhuma música dessa época, além de que mal houveram shows durante a era "Integ2000", aliás hoje em dia Dwid gosta de nomear a tríade de 1999-2001 como um projeto paralelo e não como discos e trabalhos do Integrity.


Na próxima parte: Ressurgindo das cinzas mais uma vez, as gravações em casa e o novo rumo da banda com as eras Jochum/+Orr...

Integrity - Os pregadores do hardcore apocalíptico (primeira parte)


Quando o Maurício criou esse blog, sabia que seria inevitável ele falar de Poison Idea um dia, assim como pra mim seria inevitável falar sobre esses caras aqui. Essa banda é uma das poucas na qual posso dizer que sou "fã", os caras sempre me influenciaram como músico e pessoa. Então vamos falar sobre a entidade negra do hardcore: Integrity.

Como o post vai ser MUITO longo, terei que dividí-lo em duas partes, nessa primeira abordarei o que muitos admiradores consideram como a "época de ouro" da banda, que contava com os irmãos Melnick e rendeu as obras mais famosas do grupo:


Formado em 1989, a banda teve inúmeras mudanças nas suas formações, seu único membro fixo e mentor do grupo é o vocalista Dwid Hellion. Influenciados por bandas como Mighty Sphincter, Septic Death, Motörhead, Zouo, GISM e Samhain, os caras criaram uma sonoridade que para alguns pode ser denominado como os primórdios do metalcore, para outros o início do hardcore "negativista", mas o que se pode dizer que eles são uma banda única e sem precendentes.


Além da música, suas letras apocalípticas, as imagens e histórias bizarras que envolvem o seu infame frontman fazem com que a banda criasse um status cultuado e divisor. Não é o tipo de música que cria meios termos.


Começando com o nome Diehard em 1988, após um ano de duração a banda trocou de nome e mudou sua formação, mantendo apenas Dwid nos vocais e Aaron Melnick nas guitarras. Em 1990 foi lançado o primeiro EP In Contrast Of Sin, pela Victory Records, nesse trabalho vemos um hardcore bem típico dessa época de transição que havia nos Estados Unidos, flertando com grooves, sing alongs e andamentos arrastados vindos do metal.


Em 1991 é lançado o debut Those Who Fear Tomorrow, mantendo a linha do seu EP, a banda começa a usar temáticas mais obscuras para suas letras, além de flertarem mais e mais com o metal, o uso de bumbo duplos e solos mais frequentes. A partir desse disco o grupo começou a ter uma grande notoriedade, em 1992 houve o controverso show "Palm Sunday" no bar local Peabody's, onde Dwid provocou um membro no público, essa pessoa tentou esfaqueá-lo e no fim acabou cortando o cabo do microfone enquanto cantava a primeira música do show. Resultado: Após o show, Dwid, a banda e boa parte do público perseguiu o agressor pelas ruas e espantando-o do local (abaixo há um vídeo do show com a cena da briga).


Com outra troca de formação, que rendeu a entrada do irmão de Aaron, o baixista Leon Melnick, além de Frank Novinec junto nas guitarras (conhecido hoje pelo seu trabalho no Hatebreed), em 1995 é lançado o álbum Systems Overload, outro sucesso da banda. Apostando em músicas mais rápidas e viscerais (No One, The Screams) e músicas com temáticas mais diferentes (como Armenian Persecution, escrita pelos irmãos Melnick, que tem descendência armênia) e um pequeno traço dos experimentalismos da banda na faixa Unveilled Tomorrows, que sampleia um sinfonia de Schnittke e o uso de elementos de noise.


Em 1996, foi lançado o EP Humanity Is The Devil, com a artwork feita pelo Pushead (vocalista do Septic Death, uma das maiores influências do Integrity). As mesclas com o metal ficam cada vez mais notáveis e também usando de elementos do noise (Dwid tinha um projeto do gênero chamado Psywarfare) na música, além dos conceitos sobre a Process Church Of Final Judgement serem mais visíveis nas letras, o EP é considerado o magnum opus do grupo. De acordo com a banda e o exército americano, as músicas desse trabalho são usadas para táticas de guerra do PSYOPS para torturar e interrogar presos. Segundo Dwid, que sempre gostou do termo de "música como uma arma", é um orgulho paradoxal, pois não esperariam ver ela ser usado nesse tipo de método.


Em 1997, Seasons in the size of Days foi a última obra do que os fãs consideram a "Era Melnick" (ou a era dourada da banda, dependendo do público...),  usando de elementos acústicos e também músicas de sonoridade arrastada (doom/sludge?) e thrash metal (Season Decided Fate).  As líricias e conceitos sobre misticismo, metafísica e terrorismo religioso envolvem essa obra, com a faixas polêmicas como Sarin (sobre os ataques terrorista em 1995 no Japão feito pelo culto religioso de Shoko Asahara) e Burning Flesh Children to Mist, que sampleia os últimos momentos do culto de Jim Jones, onde eles e seus seguidores cometem um suicídio coletivo. Depois a banda se separaria e encerraria as atividades, por um tempo...


Todos os álbuns da banda estão disponíveis para download grátis no site da gravadora de Dwid, Holy Terror Records, apenas clicar nesse link e escolher o que quiser, além de trabalhos de outras bandas lançadas pelo selo.

No próximo post: O retorno como Integrity 2000, To Die For e a era Jochum/+Orr.

Les Legion Noires - As Legiões Negras do Black Metal Francês


Sim, mais um post envolvendo a França, sempre achei o país um polo interessante de música, assim como a Suécia e o Japão, trouxeram cenas bem únicas e difíceis de imitar. No caso de hoje falaremos de uma destas...

As Legiões Negras foi um movimento de bandas de Black Metal e Dark Ambient que surgiram na França. Teve seu suposto início em 1991 e durou até 1998. A maioria dos membros dessa escola musical se isolaram da sociedade e viviam em florestas ou terrenos mais baldios. 


Mas isso não era o peculiar, mas sim o fato de apenas gravarem demos, EPs e álbuns LIMITADÍSSIMOS (estoques de 10, 20 cópias) e todos os seus produtos eram distribuídos para fontes confiáveis (isso mesmo, se você ganhava uma fita desses caras, podia ser considerado o cara mais trve e  fudidão do rolê), e era completamente proibida a venda dessas fitas em lojas e pirataria. Mas creio que vocês já sabem que não ficou por isso, membros do próprio ciclo acabaram fazendo bootlegs e divulgando para mais pessoas, porém esses foram expulsos do LLN.

Por volta de 1996 e 1998 as bandas começaram a ter seu material repercurtindo por toda a Europa e viraram um fenomeno cult, até hoje só tiveram entrevistas saindo numa única zine (era chamada Black Plague) que além de falar dos caras, mostrava um pouco da cena BM Norueguesa. 


Musicalmente, o que eles tem?  Bem, é um black metal da velha escola, absurdamente lo-fi e brutal, bastante uso de bate estacas e riffs inspirados em Bathory, outro fato curioso é que alguns dos projetos usavam de uma língua própria formada pelos próprios membros, esse idioma era o Gloatre, baseado numa mistura de francês com alemão. Porém essa linguagem era usada mais pra escritas de músicas e nomes de projetos quase impronunciaveis, provavelmente um plano para serem evasivos e evitarem mais e mais a divulgação boca a boca.


Então vamos apresentar algumas bandas importantes do meio e seu rápido histórico:

MÜTIILATION
 

Talvez a mais "famosa" do movimento, formada e mentalizada por Meyhna'ch, foi o primeiro grupo do ciclo a lançar material, o EP Hail Sathanas We Are The Black Legions. Mesmo após o fim do LLN, o Mütiilation durou até 2009, fazendo constantes lançamentos além de ser a única banda das legiões que fez alguma performance ao vivo (dois shows que ocorreram em 2001). Em 1996 foi banido por ter sido "junkie" demais, mas seu legado para o gênero foi importante até hoje e é um dos poucos do grupo que pode ser visto publicamente pelos rolês de lá.



TORGEIST


Essa é uma das poucas bandas com formação do grupo, formada por Vordb (baixo), A Dark Soul (baterista anônimo, podia ser qualquer um dos membros), Lord Aäkon Këëtrëh (Guitarras) e Lord Beleth'Rim (Guitarras e vocais). Foram um dos responsáveis pela disseminação do movimento e fizeram as infames vendas de bootlegs e fitas dos próprios. Duraram de 1992 até 1996, depois Beleth'Rim foi expulso das legiões. Hoje ele toca na banda Vermeth. Beleth'rim até hoje é considerado um traidor que usa seu status como ex-membro do LLN para promover a si e seus outros projetos...


Baixe aqui a demo Devoted To Satan

BELKETRE


Formada por Vordb e Aäkon Këëtrëh, a dupla é uma das outras bandas principais do gênero, além de serem dois dos membros mais prolíficos do ciclo, já que participaram em quase todas as bandas do LLN de alguma forma. Esse projeto apenas lançou várias demos entre 1993 e 1996, seu único "lançamento grande" foi um split com Vlad Tepes conhecido como March To The Black Holocaust, aliás esses 2 grupos foram as engrenagens e mentes principais pelas regras e pensamentos das Legiões Negras. Há boatos de que uma zine haveria botado o endereço dos membros por engano na hora de terem publicado uma resenha de seu material numa edição, e Belketre ameaçou de morte o escritor dessa zine. Antes a banda teve duas encarnações que foram a Chapels Of Ghouls e a Zelda:

ZELDA (ANTIGA ENCARNAÇÃO DE BELKETRE)



VLAD TEPES 


A última banda a cair dos Les Legions Noires, essa dupla contava com Wlad e Vorlok (além do batera contratado Nifleim), ambos tinham uma banda menor com Vordb chamada Black Murder (que durou 2 demos). No mesmo caso do Belketre, lançaram uma infinidade de demos e apenas 2 splits. O último lançamento deles (e das legiões negras) foi a demo/tributo The Black Legions  que contou com covers do Mutiilation, Belketre e o Brenoritvrezorkre (projeto solo de Vordb). No meio tempo lançaram os projetos Vermyapre Kommando e Seviss (de acordo com o autor desse post, 2 das minhas bandas prediletas do LLN).






SEVISS

 

OS PROJETOS DARK AMBIENT:


Ironicamente quase todos eram maestardos por Vordb: Möevöt (que já existia antes do LLN), Brenoritvrezorkre (com um certo uso de noise e ambient), Susvourtre (feita junto com o Vorlok, durou apenas uma demo, porém contava com bateria e baixo e a temática de pedofilia) e Dzlvarv (com Aäkon), quase todos os projetos de Vordb foram feitos pela estranhíssima linguagem do Gloatre:


Infelizmente sobrou MUITAS bandas que ficaram de fora (inclusive a "fake legions", feita por canastrões que queriam se passar por bandas do movimento, ou apenas fãs absurdamente bitolados que levaram isso além de um mero tributo), porém os interessados nas Les Legions Noires, seus boatos e grupos podem consultar esse blog aqui para maiores informações, porém todos os links de download estão quebrados, mais fácil tu criar ou reativar teu bom e velho Soulseek e começar a caça ao tesouro.

Morterix - Os bangers mais punks de Porto Alegre


Com 11 anos de existência, a Morterix é uma das melhores e mais respeitáveis bandas de Porto Alegre. Fazendo aquilo que chamamos de "metalpunk", essa gurizada está na luta desde 2002, sem nunca ter arregado apesar das dificuldades e fazendo shows insanos nos poucos lugares que restaram nessa cidade maldita, e além disso, a rapazeada sempre está nos shows de outras bandas underground também, sempre agitando muito, demonstrando que não tem frescuras e nem estrelismos. Admiro muito o trampo e a atitude desses caras, que depois de tanto tempo de estrada e na luta, estão prestes a lançar seu primeiro disco em formato físico, então decidi abrir um espaço mais que merecido pros caras aqui no blog, e fiz uma breve entrevista com Rodrigo Ramos, vocalista e guitarrista da Morterix, onde falamos um pouco sobre o lançamento do disco, que será chamado "The Roots of Ignorance", e sobre a banda, influências, sobre a cena de Porto Alegre entre outras marotices. Confiram!



A banda já tem 11 anos de estrada e recém agora está lançando seu primeiro disco, "The Roots of Ignorance", em formato físico (ele já tinha sido liberado para download anteriormente). Como vocês acham que o disco será recebido? Quais são os planos da banda agora? Fale um pouco sobre isso.

Rodrigo - Desde a disponibilização pro download ano passado, as críticas estão sendo bastante positivas, "para a nooooossssaaa alegria" total, o pessoal está curtindo os sons pra caramba e principalmente, comentando positivamente sobre a crueza da gravação. Sem dúvida nenhuma a maior preocupação desde antes de começarmos a gravar foi justamente fazer o possível para atingir a crueza, mas sem desperdiçar a qualidade dos equipamentos. E após muita e muita conversa com o mestre das gravações Sebastian Carsin, conseguimos (milagrosamente) convencê-lo a fazer um trampo sem modernidades desnecessárias, como trigger na bateria por exemplo, que aos olhos da Morterix estragam completamente o roque paulera em geral. Acho que o disco em formato físico vai ter uma aceitação supimpa, bastante gente pergunta nos shows se temos discos pra vender, e infelizmente ainda não temos... Mas no final de maio estará saindo da fábrica, cheirando a disco novo! Sobre os planos, os planos são continuar divulgando essas músicas (velhas pra cacete já) e continuar compondo músicas novas para o segundo disco, que pretendemos gravar em 2014 e será o ápice da insanidade lírica com a sonoridade 3 acordes e anti-solo de sempre.


A Morterix começou como uma banda de black metal, mas com o passar do tempo vocês abandoram essa cena e atualmente fazem o que podemos chamar de "metalpunk". O que motivou essa mudança?

Rodrigo - Essa mudança foi completamente natural, e a essência do som sempre foi a mesma. Pra ter uma ideia, seis músicas que constam no nosso disco são músicas ainda da época black metal, só houve pequenas mudanças em algumas letras, pra "melhorá-las" por assim dizer. Por isso acho que não foi uma mudança, mas simplesmente o desenrolar natural da evolução da banda. O que mudou de fato foi a abolição total de qualquer visual ou make-up, pois não somos atores, somos uma banda de roque paulera.


(único registro da fase black metal da banda)


A Morterix atualmente transita livremente no universo punk e metal, já dividiu o palco com bandas de hardcore, crust, thrash, death, etc, e nos shows tanto os punks como os bangers estão lá pogando e se quebrando sem tretas e sem frescuras. No início, vocês não foram acusados de "traidores" por começar a flertar com punk ou algo do tipo? Vocês acreditam que ainda há algum certo preconceito entre o metal e o punk? Nessa questão, hoje em dia a coisa está melhor ou pior? Vocês acham que há mais aceitação da banda pelo público punk ou pelo público banger? Fale um pouco sobre isso.

Rodrigo - Esse é um tópico importantíssimo de se discutir. Então, como diria o The Ripper, vamos por partes.

1) Sobre o início da mudança: Logo que decidimos abolir o "visual", um amigo nosso disse com todas as letras "vocês vão perder todo o público de vocês". E de fato, isso ocorreu. A partir de então, os shows que já chegaram a reunir uns 400 interessados (para nós é equivalente a um público de Wacken) foram ficando mais vazios, o pogo em nossos shows foi diminuindo, mesmo a gente tocando EXATAMENTE os mesmos sons. Conclusão: a galera levava mais em consideração o visual cheio de parafernalhas do que o rock'n'roll rolando solto no palco. Então começamos a tocar em shows 100% hardcore, e o que aconteceu? Parece que ali também o mecanismo é o mesmo: sem visual = sem pogo.

2) Preconceitos metal x punk e os tempos atuais: Existe sem sombra de dúvidas muito preconceito em ambos os lados, preconceitos sonoros, ideológicos, de todos os tipos. Já presenciei milhares de comentários absurdamente infantis de desrespeito entre as cenas, algo lamentável, pois metal e punk são exatamente a mesma coisa, apenas seres medíocres não possuem a capacidade de ver isso, é tudo igualmente rock 'n' roll. Felizmente temos em ambas as cenas (metal e punk hardcore) bastante gente evoluída, que não dão a mínima pra essa palhaçada toda que escrevi aí em cima, e tem crescido muito o número de shows onde temos bandas de HC e metal juntas, e são nesses shows "mistos" que nós da Morterix temos conseguido chamar alguma atenção: shows 100% metal ou 100% HC não estão sendo favoráveis para nós, é apenas stress de ficar chamando a galera pra agitar, sem êxito algum. E só pra finalizar sobre união punk/metal, eu não gostava dessa moda thrasher que surgiu há alguns anos, mas ela serviu pra dar uma boa unida entre o povo do metal e do punk e abrir a mente da galera. A cada dia está havendo mais integração e união.



Quais foram as principais influências da banda no início e quais são as influências atualmente?

Rodrigo - As grandes influências desde o início da banda sempre foram Black Sabbath, Celtic Frost e Motörhead. Eu acredito que a maior de todas seja de fato o Celtic Frost, inclusive o timbre usado na gravação do "The Roots Of Ignorance" foi baseado nas guitarras do "Morbid Tales". Darkthrone era uma grande influência na minha forma de compor riffs na época que nos denominávamos black metal. Há quem diga que a Morterix mudou de estilo devido às mudanças de estilo do Darkthrone, mas isso é uma inverdade. Como eu disse anteriormente, a Morterix sempre tocou o mesmo tipo de som, só cansou desse lance de visual. Continuamos sendo sempre os podres que sempre fomos e que sempre seremos.

As letras da banda tratam de temas variados, como alcoolismo, culto ao capiroto e mesmo temas históricos. Daonde surgem as ideias?

Rodrigo - As letras da Morterix nascem depois de alguns litros de entorpecentes ingeridos. Como metade dos sons constantes no disco são dos tempos do início da banda, esses sons em particular têm aquele sabor de black metal, com xingamentos ao cara que morreu pregado no pau e às religiões em geral. As outras letras são bem variadas, desde o amor à cerveja até coisas sem sentido mesmo. A maioria das letras, se não todas, são daquele tipo de coisa que só o autor (no caso eu mesmo) entende. Tenho preguiça de ficar pensando em letras, pois as religiões já são xingadas diariamente por milhares de bandas; o sistema e o capitalismo também; idolatração à cerveja também. Então comecei a deixar valendo a primeira coisa que vem na mente, sem preocupação nenhuma. Próximo disco só vai ter letra sem sentido, cansei de pensar em letras. Se pá, o terceiro vai até ser instrumental!


Agora a velha pergunta cretina de sempre... O que vocês acham da cena local? Cite algumas bandas daqui que vocês gostam.

Rodrigo - A cena local é uma verdadeira vergonha. Quando vemos um openbar do Opinião com bandas cover transbordando de gente, e um show underground com 15 gatos pingados, é porque algo está muito errado. Quando vemos filas de gente em show de bandas estrangeiras, e uma fila de 5 pessoas em um show underground que custa 3 reais, é porque algo está muito errado. Quando vemos um show underground com alguma banda bombando e a maioria da galera do lado de fora do local, bebendo ao invés de ir lá curtir o esforço dos caras, é porque algo está muito errado. A cena de Porto Alegre tem muito a aprender com a cena do interior do estado.

Sobre as bandas locais, fica difícil citar nomes, mas apreciamos a nata do underground como a Natural Chaos, Evil Emperor, Decimator, Blasting, Viruskorrosivus (sem puxação de saco escrotal), Living In Hell, Kombativos Subversivos entre tantas outras que tão sempre na batalha por um espaço pra mostrar seus trabalhos, geralmente tocando sem ganhar nem pro transporte.

Recomende alguma sonzeira marota para a gurizada que acessa o blog:

Rodrigo - Vou recomendar aqui um disco fenomenal, um dos meus preferidos: "Mournin'", da sensacional Night Sun.



Faça suas considerações finais: agradecimentos, xingamentos, dê um recado para os leitores do blog, mande os tomar nas pregas, deixe contato para shows... Espaço livre!

Rodrigo - Agradeço aqui em nome da Morterix a todos que nos apoiam de alguma forma, vamos sempre honrar o apoio que vocês nos dão, podem ter certeza disso. Agradeço também a vocês do blog pelo espaço, esse blog tá bom pra caramba, parabéns meus jovens! Gostaria de mais uma vez, convocar o povo pra ir aos shows das bandas locais, parem de ficar em casa olhando RedTube e comendo pastelina, saiam pra ir aos shows. Tentem ir em pelo menos em 1 show underground por mês. Não é impossível e não é caro: sei muito bem que vocês gastam muito mais com merdas desnecessárias que não os levarão a nada, então grana não é desculpa. E parem também de desrespeitar o rock'n'roll com essas rixas sem sentido entre as cenas. Pra finalizar, convido a todos para entrarem no nosso Facebook (digita lá na busca a palavra Morterix), onde vocês encontrarão para download o nosso álbum, que até o final de maio estará pronto em formato físico, e vai rolar também umas camisetas bacanas à beça. Obrigado a todos leitores, continuem podres e longe da moda. Abraços e beijos.


(Morterix no primeiro Crust and Metal Sessions, que rolou no dia 07/09/12. Filmagem por Mekaniquis

Ouça o disco "The Roots of Ignorance"
Página da Morterix no facebook

Morterix é:
Rodrigo Ramos - Guitarra e vocal
Lucas Jacomelli - Baixo
Fabrício Gil - Bateria

Nashville Pussy - Malditos rednecks sujos!


Sempre considerei que o rock 'n' roll, em seu estado bruto, deveria ser simples, barulhento, transgressor, sacana e transpirar aquele clima de boteco sujo e vagabundo, além de demonstrar na veia o eterno sentimento do porralouquismo e a filosofia do "foda-se, eu não ligo para o que os outros pensam". Pode parecer meio clichê, mas para mim existem poucas coisas mais sinceras do que isso, o rock 'n' roll no estado bruto. E o Nashville Pussy é exatamente isso, é uma legítima banda de rock 'n' roll, sincera, porra louca até o talo e que desde 1996 está tocando o foda-se e mandando uma sonzeira das mais brabas. E já adiantando, se você é um moralistinha politicamente correto, passe longe, pois essa aqui é uma banda suja, de gente escrota e que incomoda.

O Nashville Pussy é de Atlanta, Georgia, e foi formado pelo casal Blaine Cartwright (guitarra e vocal, e que era do Nine Pound Hammer, uma das pioneiras do "cowpunk" ou country punk) e Ruyter Suys (guitarra), juntos de Jeremy Thompson (bateria) e Corey Parks (baixo). A banda manda um rock 'n' roll bruto que mistura diversos elementos de punk, hard e southern rock no som, com letras que falam em sua grande maioria de sexo, brigas, drogas e bebidas de maneira bastante pomposa.



O Nashville Pussy sempre foi uma banda underground e que nunca atingiu o mainstream, justamente por ser uma banda de rednecks sujos e mal educados e que por motivos óbvios jamais conseguiriam espaço na grande mídia que preza pelo bundamolismo na música, mas que conseguiu um bom reconhecimento no underground e que ao lado de nomes como Zeke, Supersuckers, Dwarves e Reverend Horton Heat, com quem já dividiram o palco inúmeras vezes, é uma das mais cultuadas bandas do underground americano, com uma fiel legião de fãs, basicamente bêbados, pervertidos e gente fodida, como os próprios membros da banda. Ficaram conhecidos, além de seu som, pelas performances enérgicas, álcoolicas e sem pudor, onde as mulheres da banda tocam quase sempre seminuas, numa verdadeira aula de como fazer rock 'n' roll, sem qualquer frescura ou estrelismo.



O Nashville Pussy já tem cinco discos de estúdio na bagagem e já passou por algumas trocas de formação. A primeira ocorreu quando Corey Parks saiu da banda em 2000 logo após o lançamento do segundo disco da banda, "High As Hell". Em seu lugar entra Tracy Almazan, que não ficou muito tempo na banda e gravou com o Nashville Pussy apenas o disco "Say Something Nasty" de 2002. No seu lugar entra Karen Cuda, que gravou com a banda "Get Some" de 2005 e "From Hell To Texas" de 2009, além do DVD "Live In Hollywood", que aliás tem completo no youtube pra quem quiser conferir, vale a pena:



Aparentemente, Karen deixou a banda por problemas de saúde no final do ano passado e foi substituída por Bonnie Buitrago. Ao que parece estão preparando um disco novo também, e andam fazendo diversas tours por aí, principalmente na Europa e Canadá, onde são muito cultuados. A banda inclusive esteve no Brasil em 2007, para shows em São Paulo e Goiânia.

Não tenho muitas informações sobre o Nashville Pussy e também não há muito o que comentar, afinal, o som deles é o rock 'n' roll básico, ignorante, direto, sem frescuras, sacana e sem precedentes. Se você gosta de beber, foder, brigar, fumar crack e louvar satanás, com certeza essa é a banda certa pra você! Deixo para download os dois primeiros (e melhores) discos da banda, "Let Them Eat Pussy" de 1998 e "High As Hell" de 2000. Bom proveito!

Acid Bath - Pesadelo musical sludge


Os anos 90 foram o cenário da consolidação de vários gêneros musicais "novos" no universo do rock 'n' roll. Além do grunge em Seattle, também começavam a tomar forma na mesma época o stoner (mais pelos lados da quente Califórnia) e o sludge, iniciado pelos Melvins ainda nos anos 80 e lapidado nos pântanos sombrios de New Orleans. O stoner e o sludge sempre andaram juntos e mostram muitas semelhanças entre si, a começar pelas influências, que são basicamente as mesmas: maconha e Black Sabbath. Porém o sludge é baseado em bad trips, encontra influências também no hardcore e no metal extremo, gerando um clima muito mais denso e sombrio. Embora os Melvins sejam considerados os pioneiros do estilo, ele tomou forma foi com bandas como Eyehategod, Down, Neurosis e o Acid Bath, banda que será o tema do post de hoje.

O Acid Bath teve vida curta, foi formado em 1991 e teve seu fim em 1997, com a morte do baixista Audie Pitre, que morreu tragicamente em um acidente de trânsito. Porém, esse curto período de tempo já foi o suficiente para a banda marcar seu nome na história do sludge e ser reconhecida até hoje como um dos maiores expoentes do estilo, além de ter revelado ao mundo o grande Dax Riggs, um dos músicos mais criativos de todos os tempos, na minha opinião, que após o fim do Acid Bath seguiu carreira solo e vários projetos. Dentre eles, o mais conhecido é o Agents of Oblivion.



O Acid Bath, como toda banda de sludge, tinha uma fortíssima influência de Black Sabbath, porém o diferencial é que eles também aparentavam uma forte veia thrash e death, além de também mostrarem influências de bandas góticas, hardcore, e mesmo country e blues, criando uma atmosfera pesada, mórbida e depressiva. Aos leigos, costumo dizer que o Acid Bath é o "Black Sabbath versão pesadelo". Além do som em si, vale destacar a performance do grande Dax Riggs, que com maestria combina vocais rasgados e guturais provenientes do metal extremo com vocais limpos e melancólicos, mostrando uma maior influência do gothic rock, além de suas letras, quase poética, que falam basicamente de morte, confusão mental, niilismo, uso de drogas e algumas também abusam do sarcasmo e humor negro.



Em 1993 a banda lançou seu primeiro disco, "When the Kite Strings Pop". A capa traz uma pintura do notório serial killer John Wayne Gacy (conhecido também como "Killer Clown", acusado de matar 29 garotos e condenado à 12 prisões perpétuas e 12 penas de morte), e a patota foi produzida por Spike Cassidy (guitarrista do grande D.R.I, pra quem não sabe). O disco mostra um peso absurdo e fortes influências do metal extremo e já apresenta um clima de bad trip, com características peculiares que a banda desenvolveria melhor e se tornaria marca registrada do Acid Bath, como a alternância de passagens e tempos nas músicas, criando diferentes atmosferas dentro do mesmo som, além de um certo experimentalismo e o ótimo desempenho vocal de Dax Riggs. É o disco mais paulada da banda e apresenta verdadeiros clássicos como "The Scream of the Butterfly", a belíssima e extremamente depressiva "Bones of the Baby Dolls", "Dope Fiend" e "God Machine".



E para quem achava que o Acid Bath não poderia melhorar ainda mais, eis que em 1996, lançam seu segundo álbum e último suspiro, "Paegan Terrorism Tactits". Com uma pintura de Jack Kevorkian na capa, o famoso "Dr. Morte", que incentivava doentes em estado terminal ao suicídio, e produzido por Keith Falgout (que mais tarde viria a produzir discos do Crowbar e Cephalic Carnage), esse disco mostra uma banda mais madura, com maior influência sabbatheana, e apesar de menos paulada, apresenta uma atmosfera muito mais mórbida e depressiva que seu antecessor.



O disco ainda traz pauladas raivosas e no maior clima bad trip influenciadas pelo metal extremo como "Locust Spawing" e "New Corpse", mas o que predomina é um clima mórbido e depressivo, vide "Bleed Me An Ocean", "Venus Blue" (que segundo a crítica, seria um hit em potencial se não fosse pela letra extremamente mórbida), "New Death Sensation", a depressiva e incrivelmente bluezeira "Dead Girl" e "Paegan Love Song", com uma letra quase poética cheia de sarcamos e humor negro, além do puta climão "Master of Reality" do inferno.



Continuam aqui o experimentalismo, as variações de tempo e andamento das músicas, que aceleram e desacelaram, criando diversas atmosferas diferentes dentro de um mesmo som, bem como a variação vocal de Dax Riggs, combinando vocais rasgados e raivosos com vocais limpos e melancólicos, porém aqui essas características se mostram muito mais bem desenvolvidas. Infelizmente, "Paegan Terrorism Tactics" foi o último suspiro do Acid Bath, que teve seu fim em 1997 por conta da trágica morte do baixista Audie Pitre, como foi comentado acima, porém foi o disco que marcou o nome da banda na história do sludge e na minha opinião, é a obra prima maior do gênero.

Baixe aqui "When the Kite Strings Pop" e "Paegan Terrorism Tactics" e conheça uma das bandas mais desgraçadas dos anos 90.